Se fake news incomodam muita gente, deepfakes incomodam muito mais. Tais expressões já nem precisam de tradução para o português, da mesma forma que IA, cada vez mais presente no noticiário. Agora mesmo o INSS rendeu-se à Inteligência Artificial para detectar fraudes em atestados médicos nos pedidos de auxílio-doença, naqueles casos em que o empregado precisa ficar afastado de suas funções por mais de 15 dias. Conforme divulgado, o INSS vai fazer uma varredura nos atestados médicos enviados pela internet. Ou seja: um robô cumprirá a tarefa antes realizada por gente de carne e osso, porém com muito mais rapidez e eficiência. Na verdade, nem dá para comparar.
Ao mesmo tempo, as fake news, aquelas notícias falsas já incorporadas à vida cotidiana, agora evoluíram para deepfakes. Uma definição copiada da internet: “deepfakes são, essencialmente, identidades falsas criadas com o Deep Learning (aprendizagem profunda, por meio de uso maciço de dados), por meio de uma técnica de síntese de imagem humana baseada na Inteligência Artificial”. Em outras palavras, é uma invenção que, por exemplo, mostra a imagem de uma dizendo coisas que ela nunca falou. Ou aproveita o som da voz de alguém para fazer declarações falsas, em áudio. E com tamanha perfeição, que pode prejudicar muito a vida de quem é vítima.
No domingo 14, O Globo divulgou um caso de fake news contra o prefeito de Manaus, David Almeida (Avante). De acordo com o noticiário, teria sido o primeiro caso registrado contra um governante do país, com utilização da deepfake. No caso, um áudio falso foi divulgado em grupos de WhatsApp, com montagens e ataques aos profissionais de educação, em dezembro de 2023. David denunciou o caso à Polícia Federal. Para ele, a divulgação dos áudios falsos é ação de adversários políticos. Na reportagem, o jornal diz que a temporada de notícias falsas em ano eleitoral já começou e de uma forma mais difícil de ser identificada.
As novas tecnologias de informação facilitam a vida em geral, mas também podem trazer problemas. No final de dezembro, o New York Times recorreu à Justiça contra a empresa OpenAI, criadora do ChatGPT. Queixa do jornal americano: uso indevido de seu conteúdo, que teria gerado “bilhões de dólares” em prejuízos. Conforme divulgado pelo próprio NYT, a OpenAI, laboratório que criou o ChatGPT e a Microsoft, violou direitos autorais, ao usar “milhões de artigos” do jornal para “treinar chatbots automatizados que agora competem com o veículo de notícias como fonte de informações confiáveis”. E pede a destruição de todo o material usado sem permissão.
Ao mesmo tempo, foi divulgado que um movimento, também nos Estados Unidos, defende liberdade total para o desenvolvimento da inteligência artificial. Nas discussões sobre o uso da IA no jornalismo, há quem defenda que a tecnologia ainda não tem capacidade de aprofundar informações das notícias, enquanto outros dão como certo as demissões dos profissionais da área, cujo trabalho passaria a ser descartável. Ao mesmo tempo, há quem considere a IA uma ferramenta valiosa para ajudar nas tarefas jornalísticas, a exemplo do que acontece nas buscas ao Google, desde há muito ao alcance de todos: basta dispor de internet.
A IA VAI SUBSTITUIR A INFORMAÇÃO JORNALÍSTICA?
Essa foi uma das perguntas da ANJ (Associação Nacional de Jornais) ao Diretor de Estratégia Digital Alan Jhonson, publicada em 13 de setembro de 2023. “Por enquanto, a inteligência artificial está em estágio inicial neste segmento. Portanto, não acredito que o jornalismo como um todo esteja ameaçado neste momento. No entanto, é de se esperar que, em algum momento, algumas grandes empresas de tecnologia, como o Google e o Meta, que utilizam informações como base para seus usuários, se movimentem para coletar dados de redes sociais e gerar notícias em tempo real, escritas por IA, provenientes de várias fontes de usuários, mesmo antes de se tornarem virais”, respondeu Jhonson.
Na entrevista, o especialista em comunicação digital também afirmou que as empresas de IA usam conteúdo de produção jornalística sem reconhecimento de propriedade intelectual. “A verdade é que todas essas atuais ferramentas de IA que geram conteúdo se baseiam no jornalismo como fonte”, afirmou. Como se percebe, é esperado que o assunto ainda esteja longe do fim mas, na prática, está em curso uma revolução no mundo da informação. E só resta uma adaptação aos novos tempos, enquanto se aguarda a próxima revolução.
A campanha eleitoral deste 2024, pelo que já aconteceu com o prefeito David Almeida no caso das deepfakes é, talvez, um teste para o jornalismo. A declaração de um candidato em redes sociais, por exemplo, especialmente se for do tipo bombástica, deve ser logo reproduzida nos veículos de comunicação, como se costuma fazer, ou terá de passar por uma “profunda” checagem?
Com o precedente, e parodiando antiga música popular, pode ser que a eleição municipal de outubro não seja igual àquela que passou.

