EUA abre investigação comercial contra Brasil, imagem da China melhora na opinião pública e o que importa no mercado
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Brasil pergunta para Donald Trump para que serve uma investigação tão grande sobre comércio. "Para te ver melhor", respondeu o presidente americano.
Também aqui: empresariado e governo tentam chegar a um consenso sobre retaliação, imagem da China melhora na opinião pública e outros destaques do mercado nesta quarta-feira (16).
**O BRASIL NO MICROSCÓPIO DE TRUMP**
Quando um teimoso enfia uma ideia na cabeça, é difícil fazê-lo mudar de ideia. Donald Trump decidiu que o Brasil precisa ser taxado, e agora, vai dar trabalho dissuadi-lo da missão.
O governo americano, a mando do presidente, abriu uma investigação comercial contra o Brasil.
COMO ASSIM?
Como assim? A apuração, a cargo do USTR (Representante Comercial dos Estados Unidos), vai avaliar práticas do país em áreas como comércio eletrônico e tecnologia, taxas de importação e desmatamento, segundo o comunicado divulgado ontem pela entidade.
POR QUÊ?
O documento que detalha a investigação diz que o Brasil pode estar prejudicando a competitividade de empresas americanas ao retaliar redes sociais por elas não censurarem conteúdo político.
A decisão cita também "tarifas preferenciais e injustas", interferência anticorrupção, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, desmatamento ilegal e discriminação aos americanos no comércio.
Vale lembrar que não há déficit para os EUA no comércio com o Brasil. Isto é, os americanos lucram mais do que gastam na troca com o nosso país fato que contraria as afirmações do republicano. Entenda melhor a dinâmica nesta reportagem.
Ou seja lembra daquela vez em que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes suspendeu o uso do X (antigo Twitter) no Brasil por uns 40 dias? Pois é, estávamos assistindo ao começo de uma novela das boas.
O texto dos americanos não cita diretamente as decisões do tribunal para remoção de conteúdo golpista, mas o ponto foi levantado por Trump quando anunciou a sobretaxa de 50% às exportações brasileiras.
O Brasil vira arena de uma das questões mais difíceis de responder sobre a atualidade: qual a intersecção entre as regras das plataformas e as leis? O que acontece quando elas se contrapõem?
OS RISCOS
O problema é que, depois de finalizada, a investigação pode servir como base legal para a imposição de medidas futuras contra o Brasil pela gestão de Trump.
Especialistas avaliam que os riscos de um processo como este são tão grandes ou até piores do que o anúncio das tarifas de 50%.
**A TÁVOLA REDONDA**
Ao governo brasileiro, não restou alternativa senão reunir todos para conversar depois de levar uma bordoada de Donald Trump.
Ontem, representantes do governo se reuniram com o empresariado e entidades do setor produtivo para discutir qual deve ser a reação brasileira à sobretaxa de 50%.
Geraldo Alckmin (vice-presidente e ministro do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), Fernando Haddad (Fazenda), Simone Tebet (Planejamento e Orçamento) e Rui Costa (Casa Civil) estavam no encontro.
CHORINHO
Depois da reunião, o vice-presidente disse que a prioridade do governo é reverter a tarifa até 1º de agosto, quando está programada para entrar em vigor. Mas ele não descarta pedir uma prorrogação do prazo, se for necessário.
UM PROBLEMA
O agronegócio, responsável por setores como frutas, café e carne bovina, tem produtos já em processo de exportação para os EUA, o que demanda maior urgência para resolver o assunto. Para eles, é preciso que tudo seja resolvido sem prorrogação da data limite.
NA PAZ
O setor produtivo brasileiro não quer tarifas retaliatórias antes que outras opções de negociação como cotas de importação isentas, suspensão da taxa, adiamento sejam esgotadas.
O mais importante é que o Brasil não pretende ser reativo intempestivamente. Nós entendemos dessa reunião que o país não se precipitará em medidas de retaliação, para que elas não sejam interpretadas como simplesmente uma disputa, disse o presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Ricardo Alban.
Liga mais tarde
O vice-presidente disse que espera há dois meses uma resposta dos EUA sobre uma carta enviada pelo Brasil que trata de acordos comerciais, e falou que pretende cobrar uma devolutiva do governo Trump.
Ainda, Alckmin se queixou da dificuldade para encontrar um interlocutor americano para as negociações.
Ao longo dos próximos dias, os ministros continuarão em reuniões com diferentes setores da economia para traçar o plano de ação.
**CHINA, O FOGUETE SEM RÉ (?)**
Na visão da maioria, não parece haver barreiras para o crescimento chinês.
Uma pesquisa indica que, em média, 41% das pessoas entrevistadas em 25 países veem a China como a maior potência econômica atual, contra 39% que avaliam ser os Estados Unidos.
Há dois anos, os EUA lideravam com 41%, contra 33% dos rivais.
O estudo foi realizado pelo Pew Research Center, instituto sediado em Washington. Ele abrange, entre outros países, Brasil, EUA, África do Sul, Índia, Indonésia, Austrália, Japão e nove europeus, como Alemanha, França e Reino Unido.
Não participaram a Rússia nem a própria China.
Foram ouvidos 31.938 adultos entre janeiro e abril deste ano, consultados com a pergunta: "Hoje, qual dos seguintes você acha que é a principal potência econômica do mundo: EUA, China, Japão ou os países da União Europeia?"
Sim, mas na maioria dos países, os entrevistados disseram ser mais importante ter relações econômicas com os americanos do que com os chineses.
No caso do Brasil, é como pensam 51% dos entrevistados, contra 36% que apontaram a China.
Segundo o relatório, "parte desse movimento pode estar relacionado à confiança ou falta de confiança em Donald Trump para lidar com problemas econômicos globais". Sentiu?
BONS OLHOS
O levantamento perguntou em nove países se os entrevistados veem mais favoravelmente os investimentos americanos ou chineses. Na Índia, a maioria optou pelos EUA (59% a 33%).
No Brasil, 58% foram favoráveis à China e 54%, aos EUA.
DESCONFIANÇA
De maneira geral, na média dos 25 países, a visão sobre a China melhorou, mas segue negativa.
Questionados se têm opinião favorável ou desfavorável, 36% disseram favorável (31%, um ano atrás) e 54%, desfavorável (61%, um ano atrás).
O Brasil vai na direção oposta: 51% têm opinião favorável da China, contra 40% desfavorável. Os outros dois latino-americanos, México e Argentina, apresentam visão também majoritariamente positiva sobre Pequim.
**A MAIOR DO MUNDO**
Se já é difícil fazer a sua própria gestão financeira, imagine cuidar do dinheiro dos outros. Felizmente, existem alguns aficionados pelo mercado que topam fazer isso e, quando alguém consegue exercer bem a função de investidor, todo mundo quer um pedaço.
Os ativos sob gestão da BlackRock atingiram um novo recorde no segundo trimestre. Segundo a empresa, a cifra administrada por ela alcançou US$ 12,53 trilhões (R$ 69,66 trilhões).
QUEM?
A BlackRock é a maior gestora de ativos do mundo acaba de bater o recorde de maior quantia sob a administração de uma companhia do tipo. Foi fundada em 1988 por Larry Fink, que a preside até hoje.
Ela começou gerindo ativos de renda fixa, mas o ponto de virada foi o lançamento de produtos financeiros e plataformas que ajudam investidores a tomar decisões. O foco em desenvolvimento tecnológico desde os primeiros dias de empresa gerou muitos gastos, mas muito retorno também.
Sim, mas as entradas líquidas de longo prazo caíram 9,8% no trimestre, para US$ 46 bilhões (R$ 257 bilhões).
Não dá para cravar um motivo único para a retração, mas dá para relacioná-lo, em partes, à incerteza sobre o futuro da economia global.
NAS NUVENS
Os principais índices acionários das bolsas de valores americanas Nasdaq 100, S&P 500 e Dow Jones atingiram patamares históricos nos últimos meses.
Entre maio e junho, a percepção era de que, depois de uma escalada na tensão comercial, o presidente americano recuaria nas propostas mais severas e que o fluxo das importações e exportações para os EUA não mudaria tanto assim. O alívio impulsionou os ganhos em praças ao redor do mundo.
O movimento recebeu um apelido: T.A.C.O Trade, sigla em inglês para Trump sempre amarela. Assim que o republicano anuncia uma medida tarifária e pega o mercado financeiro de surpresa, as ações caem. Quando ele afrouxa as imposições, as negociações disparam.
Os ganhos na renda variável deram gás aos resultados da BlackRock. Com a recuperação das ações, os produtos de renda fixa registraram saídas de US$ 4,66 bilhões, disse a empresa.
**O QUE MAIS VOCÊ PRECISA SABER**
Peso pesado. A Core Weave, que fornece computação em nuvem para IA, planeja investir US$ 6 bilhões para montar um data center que permita o funcionamento dos maiores modelos de inteligência artificial do mundo.
Tarcísio ignorou Bolsonaro e defendeu uma saída coordenada com o Itamaraty para a crise diplomática com os Estados Unidos. São Paulo, o estado que ele governa, é o que mais comercializa com os americanos.
Sem acordo. A reunião no STF entre o governo Lula e o Congresso terminou sem definições e a decisão sobre o futuro do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) ficou para o ministro Alexandre de Moraes.
Continua caro. O preço da gasolina não caiu, mesmo com mudanças na composição do combustível. Segundo o setor, a inflação e o álcool pressionam os custos.
ASSUNTOS: Economia