Um paralelo entre o caso da Venezuela e o Amazonas
- Quando o discurso se descola da realidade local, ele deixa de ser instrumento de governança e passa a funcionar como álibi para a paralisia, a omissão ou a imposição, a intervenção, o sequestro e a guerra.
A recente ofensiva dos Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, contra a Venezuela, justificada pelo enquadramento do regime local como estrutura associada ao narcotráfico, reacende um debate antigo e recorrente: até que ponto a retórica da ordem, da moralidade ou da segurança internacional autoriza a compressão da autonomia de povos inteiros?
O problema central não está apenas na Venezuela. Está na naturalização de uma lógica segundo a qual a distância, seja política, cultural ou geográfica, autoriza decisões tomadas sem escuta, sem mediação e sem compromisso real com a complexidade do território afetado.
Esse mesmo padrão, em escala distinta, é familiar ao Amazonas. O homem amazônico convive há décadas com formas reiteradas de “intervenção”, muitas vezes travestidas de tutela técnica, proteção ambiental ou racionalidade administrativa. Decisões tomadas a partir de gabinetes distantes, em Brasília, frequentemente ignoram o contexto social, econômico e logístico da região, produzindo efeitos concretos sobre quem pouco participou da formulação dessas escolhas.
Não se trata, aqui, de negar a importância da proteção ambiental, do combate a ilícitos ou do controle estatal. O ponto é outro: quando o discurso se descola da realidade local, ele deixa de ser instrumento de governança e passa a funcionar como álibi para a paralisia, a omissão ou a imposição.
No plano internacional, isso se manifesta em ações militares ou sanções; no plano interno, em obras que não saem do papel, políticas públicas mal calibradas e decisões judiciais que aplicam fórmulas abstratas a realidades profundamente desiguais.
ASSUNTOS: EUA, Maduro, Trump, Venezuela
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.