A injustiça do STF com os estudantes do Amazonas
- O Amazonas sofreu uma de suas maiores derrotas em 2025. Não apenas uma derrota jurídica em relação a UEA, mas uma derrota social, que dificulta ainda mais a superação das desigualdades em relação às regiões mais ricas do país.
- Para muitos estudantes do interior, chegar à capital já é um desafio enorme. Competir por uma vaga universitária com jovens de grandes centros, que têm estrada, transporte fácil e infraestrutura, é uma disputa claramente desigual.
- Em vez de ajudar o Amazonas a superar suas limitações, a decisão reforça o desequilíbrio entre as regiões do país. A Constituição existe para promover justiça social, não para ignorar a realidade de quem vive longe dos grandes centros.
Ao derrubar regras da Universidade do Estado do Amazonas que buscavam favorecer estudantes da própria região, o STF afirmou estar defendendo o princípio da igualdade. Mas, na prática, essa decisão ignora as diferenças reais entre o Amazonas e o restante do Brasil. Tratar situações tão desiguais como se fossem iguais não corrige injustiças — as aprofunda.
O Amazonas não é um estado comum. É enorme, distante e difícil de atravessar. Muitas cidades só são acessíveis por rio. Em certos períodos do ano, a seca impede a navegação; em outros, as cheias dificultam o deslocamento. Para muitos estudantes do interior, chegar à capital já é um desafio enorme. Competir por uma vaga universitária com jovens de grandes centros, que têm estrada, transporte fácil e infraestrutura, é uma disputa claramente desigual.
Quando a Justiça diz que todos devem disputar em igualdade de condições, ela parte de uma ideia que existe no papel, mas não na vida real. A igualdade defendida nessas decisões é teórica. Ela não leva em conta a distância, a pobreza, a falta de acesso e as dificuldades enfrentadas diariamente por quem vive no interior do Amazonas.
Há outro ponto que quase nunca é considerado. A UEA é mantida com dinheiro do próprio Amazonas. O Estado abre mão de arrecadar impostos para atrair empresas, gerar empregos e financiar serviços públicos, inclusive a universidade.
Não se trata de um sistema sustentado por recursos nacionais distribuídos igualmente entre os estados. São recursos nossos, fruto de escolhas locais, pensadas para atender às necessidades da região.
Mesmo assim, o Amazonas é tratado como se estivesse nas mesmas condições que estados ricos e bem estruturados. Ao impedir políticas regionais criadas para reduzir desigualdades históricas, a decisão acaba protegendo quem já tem mais oportunidades e dificultando ainda mais a vida de quem sempre teve menos.
O resultado é um paradoxo cruel: em nome da igualdade, a desigualdade aumenta.
Para quem mora no Amazonas, essa não é uma discussão abstrata. É sobre acesso à educação, chance de melhorar de vida e direito de competir em condições minimamente justas. Enquanto essas diferenças reais continuarem sendo tratadas como se não existissem, o discurso da igualdade seguirá servindo para manter o Amazonas sempre em desvantagem.
ASSUNTOS: Amazonas, STF, UEA
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.