Varredura em presídio de Bangu, onde Celsinho da Vila Vintem está preso, encontra pistola 9mm
RIO - Dois dias depois de uma reportagem de O GLOBO revelar que fiscalizações sucessivas este ano de promotores do Ministério Público estadual encontrarem dinheiro, facas, drogas e celulares dentro de penitenciárias no estado, uma varredura nesta segunda-feira de agentes penitenciários encontrou uma pistola 9 mm dentro de uma cela no presídio Jonas Lopes de Carvalho, o Bangu 4, onde está preso o traficante Celso Luís Rodrigues. Celsinho da Vila Vintém, como é mais conhecido, é o único chefão de facção criminosa que encontra-se preso no Rio. Os demais cumprem pena em presídios federais. São eles que a Defensoria Pública da União quer que retornem ao Rio. Um pedido de liminar foi apresentado ao Supremo Tribunal Federal (STF) nesse sentido.
A apreensão da pistola foi registrada pelos agentes penitenciários na 34ª DP (Bangu). O GLOBO apurou que a direção da penitenciária determinou a fiscalização depois de receber uma informação anônima. Foi abertura de uma sindicância interna para apurar as circunstâncias do caso. Sete presos foram autuados em flagrante e transferidos para a penitenciária Laércio da Costa Pellegrino, Bangu 1, como forma de castigo. A pistola, que seria de um modelo especial, foi encontrada dentro da galeria B 2.
Como O GLOBO mostrou, apenas este ano, em fiscalizações de rotina nas cadeias do Rio, promotores já encontraram dentro de tudo dentro das celas dos presídios do Rio. Na semana passada, nove celulares, dezenas de chips de operadoras e carregadores, além de maconha, cocaína, uma balança para pesar drogas e dinheiro, foram recolhidos em apenas uma galeria do Instituto Penal Benjamin de Moraes Filho. Um detalhe: a unidade, que abriga cerca de 950 detentos — integrantes do Terceiro Comando Puro —, tem um scanner corporal em perfeito estado e detectores de metais.
Durante a vistoria na cadeia, quatro detentos foram autuados em flagrante — algo que virou rotina nas fiscalizações realizadas este ano pelo Ministério Público. “Infelizmente, os presídios do Rio viraram grandes escritórios do crime”, afirmou um dos promotores que estiveram no presídio e que registraram a apreensão na 34ª DP (Bangu):
— Achamos sempre celulares nas celas, e a balança que recolhemos comprova que a venda de drogas dentro da cadeia é algo realmente comum. Os presídios do Rio não estão preparados para receberem de volta os chefes das facções que se encontram no sistema penitenciário federal.
Um policial que acompanha a situação do Instituto Penal Benjamin de Moraes Filho concorda com o promotor. Para ele, não seriam investimentos em tecnologia que mudariam a situação nas penitenciárias do estado.
— Apesar das fiscalizações, do scanner corporal, dos detectores de metais e dos bloqueadores de sinal de telefonia, os presídios do Rio são verdadeiras peneiras. Os detentos continuam controlando seus negócios do lado de fora — afirmou o policial, que pediu para não ser identificado.
Não é só o tráfico que consegue burlar restrições dentro de penitenciárias. Numa unidade onde estão presos milicianos, a Cadeia Pública Bandeira Stampa, em Bangu, uma outra fiscalização do Ministério Público, realizada em março, encontrou de tudo: celulares, chips de operadores, pen drives, carregadores e até facas. Além disso, promotores acharam R$ 12 mil numa cela.
No mês passado, um agente penitenciário foi flagrado, durante uma fiscalização do Ministério Público, com R$ 9 mil, quatro chips de operadoras e duas cartas de presos. Um detalhe impressionou promotores: boa parte das cédulas apreendidas com o servidor tinham a sigla de uma facção.
— Não há, por parte da Secretaria estadual de Administração Penitenciária, uma investigação adequada sobre o envolvimento de funcionários do sistema com o crime organizado. Em regra, punições para casos de flagrante de irregularidade não passam de simples transferências — afirmou um promotor.
Na semana passada, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, ofereceu ao governo do estado um efetivo de militares para fazer revistas dentro das penitenciárias fluminenses. Setores de inteligência das Forças Armadas levantaram, durante a Olimpíada de 2016, informações sobre crimes praticados dentro dos presídios do Rio. De acordo com a proposta da União, uma tropa entraria nas cadeias com equipamentos de ponta para localizar celulares e armas. A proposta, no entanto, não foi aceita pelo Palácio Guanabara. O GLOBO apurou que o governador Luiz Fernando Pezão recusou a ajuda após uma consulta ao secretário de Administração Penitenciária, coronel Erir Ribeiro Costa Filho.
A Secretaria de Administração Penitenciária não comentou o caso. Em nota, o órgão destacou que “diariamente são realizadas operações de revistas de rotina aleatoriamente nas unidades prisionais do estado”, e lembrou que conta com banquinhos, portais e raquetes que detectam metais, além de raios X de bagagem e scanner corporal, no complexo de Gericinó, que abriga 51.111 detentos.
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