Festas realizadas sob viadutos se multiplicam pela cidade
O Baile do Viaduto de Madureira, que há mais de duas décadas espalha seu charme sob as pilastras do Negrão de Lima, está servindo de inspiração para jovens produtores culturais em busca de novos espaços para reunir gente. Em Laranjeiras, a área escolhida fica debaixo do Viaduto Engenheiro Noronha — aquele que liga o Túnel Santa Bárbara à Rua Pinheiro Machado —, onde já teve uma animada festa junina na semana passada e, hoje, a partir das 15h, haverá roda de samba.
— Fico feliz de as pessoas participarem ativamente da construção da cidade. Vejo isso como um caminho para uma sociedade mais saudável — afirma o produtor Marcos Quental, morador de Laranjeiras e um dos responsáveis pelos novos eventos.
Com a ajuda do amigo, músico e produtor Gabriel Ruiz, também morador de Laranjeiras, Marcos conseguiu agregar generosidade à festa: quem participa do evento ou simplesmente passa pela rua pode contribuir com o “varal da gentileza”, no qual são estendidas roupas para doação. Quem se interessa por alguma peça tem liberdade para pegar e levar.
— Queríamos mudar a imagem do viaduto, que era visto como um lugar perigoso — explica Gabriel, numa referência ao assassinato do jovem Miguel Ayoub Zakhour, em abril, durante uma tentativa de assalto ao lado do viaduto.
A ocupação é aplaudida até por quem não é do bairro.
— É importante mostrar que a cultura acontece independentemente de uma iniciativa governamental. Ela se faz principalmente através da população, que deseja movimento e um pouco de alegria — destaca a fotógrafa Márcia Romano, que mora em Ipanema e vai a Laranjeiras em dias de evento.
Em Botafogo, a parte de baixo do Viaduto Pedro Álvares Cabral, na altura do Edifício Mourisco, chegou a ser tomada por mesas de bares da região e seus clientes em busca de cerveja para botar o papo em dia. Mas, em fevereiro, a prefeitura proibiu a ocupação.
Na Zona Oeste da cidade, em Realengo, o Viaduto Jornalista Aloysio Fialho Gomes vem sendo animado às terças-feiras com batalhas de MC, bailes de música black e partidas de basquete. No dia 15, haverá o festival Zona de Cinema, com exibição gratuita do filme “Deixa na régua”, de Emílio Domingos.
— O viaduto fica na parte mais violenta de Realengo. Transformamos a realidade de uma região escura e sombria. Levamos cores por meio do grafite e vida através da música — celebra o produtor Oberdan Mendonça, um dos idealizadores do Espaço Cultural Viaduto de Realengo.
Um dos responsáveis pelo baile de Madureira, que acontece nas noites de sábado, o produtor Leno de Souza diz que a concorrência é bem-vinda:
— Acho positivo. Desde que façam como nós, de maneira organizada. O som, por exemplo, não pode ser alto, para não incomodar os vizinhos.
Segundo a prefeitura, eventos em áreas públicas devem seguir o Decreto 43219/2017 e a Resolução n° 58 da Casa Civil. É necessário, por exemplo, pedir Alvará de Autorização Transitória e instalar banheiros químicos. Quanto ao Viaduto Pedro Álvares Cabral, o município disse que a utilização de mesas e cadeiras ocorria de forma irregular e que haverá punição em caso de reincidência.
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