Conheça o dono do Bar do David, que leva celebridades ao Morro Chapéu Mangueira
Um punhado de feijão branco, cozido com um tanto de lula, de camarão, de mexilhão e de peixe branco. Essa é a receita da feijoada de frutos do mar que fez a fama de David Bispo, dono do Bar do David, no Morro Chapéu Mangueira, no Leme. Há seis anos, o local tem estreitado a distância entre a favela e o asfalto e atraído turistas e cariocas de diversas partes do Rio. O tempero, ele não revela nem sob tortura.
— É segredo de família. Essa receita é de uma irmã minha, já falecida — conta David, que aprendeu a cozinhar com a mãe, Odília Bispo, de 85 anos. — Minha mãe foi cozinheira em um bar por 35 anos e, até hoje, ela faz comida para mim. Ela é mineira e faz galinha com quiabo e angu como ninguém.
Dona Odília ficou toda faceira com a mais recente conquista de seu “menino” de 44 anos. Após ficar em terceiro lugar no concurso Comida di Buteco em 2011, em segundo em 2012 e novamente em terceiro na edição de 2015, David conquistou o posto mais alto do pódio este ano, tanto na etapa carioca, quanto na nacional do prêmio, em maio. O prato vencedor? Salada de frutos do mar com molho vinagrete e feijão fradinho. Um filme passou pela cabeça dele:
— Fui convidado a participar do Comida di Buteco em 2011. Não imaginava que estava à altura dos outros competidores, me sentia inferior. Ser o primeiro bar de favela a ganhar esse prêmio foi motivo de um orgulho muito grande, por dar visibilidade a pessoas que trabalham sério e não têm seus esforços reconhecidos.
David trabalha desde criança. Aos 7 anos, fazia carreto na feira, “transportando as compras das madames”. Concluiu o segundo grau, mas não deu continuidade aos estudos “por falta de opção”.
— Eu era bom aluno, mas vinha de uma família muito grande, éramos dez filhos. Então, precisava trabalhar para ajudar a pagar as contas da casa — lembra.
Foi ser pescador, ofício que aprendeu com o pai, Lúcio Bispo, falecido há 9 anos. David o tinha como ídolo:
— Meu pai chegou ao Chapéu Mangueira em 1947 e foi quem registrou, em 1960, a associação de moradores do morro. Foi seu primeiro presidente. Durante a ditadura, foi ele quem combateu os militares que mandaram derrubar as casas da comunidade porque não queriam uma favela na Zona Sul.
Também foi seu Lúcio o responsável pela decisão do filho de montar seu próprio negócio.
— Trabalhei em uma loja de pesca em Vila Isabel até 2009, quando me desentendi com o dono e saí. Meu pai falava que, quando dois líderes se juntavam, tinham que se separar, para que cada um comandasse o seu rebanho — diz David, que abriu uma birosquinha num imóvel de “duas portinhas”, construído pelo irmão. — Na época, meu pai falou: “vocês vão ter que fazer o melhor bar da favela". E hoje temos o melhor do Brasil.
As tais “portinhas” se transformaram num charmoso bar de dois andares, com terraço e vista para o mar. Já recebeu artistas internacionais, como o ator Hugh Laurie, o Doctor House da extinta série de TV, que, em passagem pelo Rio para se apresentar com sua banda de jazz, fez questão de conhecer o local. E celebridades tupiniquins, como Mariana Ximenes e Bruno Gagliasso.
— David é gente finíssima e faz um feijão tropeiro maravilhoso. É um cara antenado, que sempre procura levar ideias novas para o cardápio e trabalha muito com a comunidade, valoriza as raízes dele — elogia o italiano Paolo Lavezzini, chef do Hotel Fasano.
Nascido e criado no Chapéu Mangueira, David faz questão de enfatizar que, por mais que já tenha condições de se mudar para uma casa no asfalto, não pensa em deixar a favela.
— Me sinto como uma planta que, se transportarem para outro lugar, vai morrer. Minha raiz está aqui — diz o pai de Maria Gabriela, de 13 anos, garantindo que após os últimos tiroteios, ocorridos em março, a paz voltou a reinar na comunidade.
O próximo desafio do empresário é levar o velocista jamaicano Usain Bolt, bicampeão olímpico em três modalidades, ao Morro Chapéu Mangueira durante os Jogos. Para tanto, ele tem gravado vídeos com famosos como a apresentadora Fátima Bernardes, o sambista Diogo Nogueira e o casal de atores Rosamaria Murtinho e Mauro Mendonça, convidando o atleta. A esperança é de que as mensagens cheguem até ele através da internet:
— A presença de um ídolo do esporte nas favelas pode despertar sonhos.
ASSUNTOS: Rio de Janeiro