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Galeria Condor, no Largo do Machado, terá cinema de filmes bíblicos

Por Agência O Globo

05/10/2017 21h10 — em
Rio de Janeiro



RIO - Inaugurada em 1966 no coração do Largo do Machado, a Galeria Condor prepara-se para receber uma novidade do tamanho de seu jubileu. O endereço é a loja 51, de generosos 1.800 metros quadrados com mezanino original, onde funcionaram, durante 38 anos, as salas dos cinemas Largo do Machado 1 e 2, as últimas da antiga rede CIC, que marcaram gerações e estão fechadas desde março de 2003. Após um longo imbróglio jurídico que bateu até a porta do Supremo Tribunal Federal (STF), a Igreja Universal do Reino de Deus, proprietária do imóvel e derrotada na Justiça em 2007, bateu o martelo: como não pode abrir um templo, está prestes a concluir uma novíssima, e gigante, sala de cinema, com 800 lugares.

A reviravolta no destino da loja 51 aconteceu em julho de 2016, mais de 13 anos após o fechamento do cinema. Como as regras do condomínio comercial não permitem cultos na galeria e o espaço já estava vazio há mais de uma década, os bons ventos de 2017 trouxeram a ideia. Se só pode funcionar um cinema, que seja feita a vontade do regulamento interno: haverá um cinema. Só que bíblico, segundo pessoas que acompanham a obra.

Síndico do condomínio da Galeria Condor, Emílio Giannelli conta que foi muito claro com os representantes da Igreja Universal, com quem fez inúmeras reuniões nos últimos anos.

— Tenho que cumprir a convenção, as leis do país e as decisões judiciais. Transitou em julgado, não podia ter culto. O pessoal da igreja sempre me tratou bem, com uma fidalguia ímpar. Eu dizia: se for para fazer cinema, terão meu apoio. Minha obrigação é atender aos condôminos. Prevaleceu o bom senso. O que diz a convenção? Cinema. O que diz a Justiça? Cinema. O pessoal da Universal refere-se ao projeto como um cinema bíblico, mas não sei como será na prática — diz Giannelli, engenheiro civil especializado na restauração de monumentos históricos.

Em junho, o síndico recebeu um convite especial. O prefeito do Rio e bispo licenciado da Igreja Universal, Marcelo Crivella, o chamou para um almoço. A reforma estava em ritmo acelerado.

— Ele não tocou no assunto do cinema. Sentamos e ele disse: conte-me sobre você. Foi uma conversa muito agradável — recorda-se Giannelli, acrescentando que a Universal sempre pagou a taxa de condomínio de R$ 18 mil por mês, além de manter o imóvel em bom estado de conservação.

Procurado, Crivella preferiu não conceder entrevista sobre o mais novo empreendimento cultural a ser aberto num dos centros comerciais mais tradicionais da cidade. Marcada pela diversidade, a Galeria Condor tem 125 lojas e sobrelojas, além de 280 salas comerciais no prédio de 12 andares onde funcionam consultórios, muitas óticas, alfaiataria, loja de tatuagem, centro de terapia corporal, loteria, salões de beleza, relojoarias e uma espécie de âncora, a concorrida Rotisseria Sírio-Libanesa, famosa por vender a melhor e mais quentinha esfirra da cidade.

O novo cinema ainda não tem data anunciada para abertura, mas já está quase pronto. O piso foi refeito em granito e as paredes, revestidas em lambri. A iluminação está toda finalizada com o teto tinindo de novo. Segundo quem viu o cinema por dentro, em nada lembra uma igreja. O tom predominante é bege, e a atmosfera remonta às antigas salas de rua da cidade. Faltam apenas as poltronas e a tela. Por isso, a movimentação de operários foi paralisada há três semanas.

A Igreja Universal foi procurada pela reportagem desde quarta-feira, por e-mail e telefone, mas não respondeu. A Secretaria municipal de Fazenda informou que não foi expedido, até ontem, alvará para o local por não haver “atividade econômica” no momento.

Se, em 2003, houve abaixo-assinado de moradores e condôminos entregue ao ex-prefeito Cesar Maia exigindo o cancelamento dos cultos, hoje o cenário é diferente, apesar da apreensão de alguns.

A vizinhança já se prepara para a chegada do novo equipamento e novos frequentadores. O público também precisará se preparar. Uma loja colada à entrada do cinema é a sex shop “A Boutique Erótica”, que vende toda sorte de brinquedos sexuais e lingeries de excelente qualidade, dizem os clientes. No letreiro, bem em frente à sala, uma televisão fica ligada em looping mostrando espartilhos, objetos para o prazer íntimo e fotos de mulheres em poses provocantes. Ali, menor de 18 anos não entra. O pecado, dizem os gaiatos, vai morar ao lado do cinema bíblico.

Mineiro de Ponte Nova, Adilson Martins, de 46 anos, é uma figura conhecida da galeria. Trabalha desde 1993 servindo esfirras na rotisseria e hoje é gerente nos turnos da tarde e da noite. Ele conheceu a época do cinema e o curto período no qual a igreja ficou aberta no imóvel, antes de ser proibida:

— Quando alguém vai para um cinema, geralmente separa um dinheirinho para fazer um lanche, gastar algo a mais. Na período em que a igreja funcionou no lugar do cinema, lembro que o pessoal passava reto, não parava nas lojas da galeria nem para comer esfirra. Se eu fosse comparar, prefiro os frequentadores do antigo cinema. Mas precisamos ver como será a partir de agora.

Já o barbeiro campista Paulo dos Santos, de 68 anos, 45 deles dedicados ao seu salão de uma cadeira só na sobreloja da casa lotérica, gostou da novidade:

— Serão mais pessoas circulando pela galeria. Tenho a impressão de que será melhor para todo mundo. Para o meu negócio, vai ficar igual. Minha clientela é antiga.

Um ponto é pacífico na galeria: o espaço do cinema já estava fechado há muito tempo e precisava reabrir. O desfecho não foi, porém, o que queria o então deputado federal Bispo Rodrigues. Era março de 2003, a Universal acabara de arrematar o imóvel por cerca de R$ 1,4 milhão em um leilão judicial para o pagamento de dívidas dos antigos proprietários. À época, Rodrigues tinha pressa.

— O prazo para a entrega das chaves acabou em fevereiro. Em no máximo 48 horas após o espaço ser entregue, abriremos a igreja — afirmou o deputado, em entrevista publicada no GLOBO, no dia 8 de março de 2003.

Quase uma década depois, Bispo Rodrigues foi acusado no escândalo do mensalão e condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro a uma pena de seis anos e três meses de prisão. Em 2016, depois de ter sido preso e solto, recebeu perdão judicial do ministro do Supremo Luís Roberto Barroso.

A galeria, que começou nos anos 1960 com apenas cinco lojas e hoje tem movimento diário de aproximadamente nove mil pessoas, entre funcionários e frequentadores, vive um bom momento, apesar da crise econômica do país.

Com localização estratégica colada à estação Largo do Machado do metrô, ao lado de um supermercado e perto de escolas, é como se fosse um “Centro” da Zona Sul. Recebe uma mistura de clientes de todas as classes sociais. As únicas lojas atualmente fechadas estão sendo reformadas para novos negócios. E a maior delas, o cinema, deve entrar, em breve, no animado cardápio de atrações do Largo do Machado.


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