Por motivos diferentes, dois dos oito deputados federais do Amazonas têm os nomes citados na imprensa nacional, nos últimos dias: Silas Câmara (Republicanos) e Amom Mandel (Cidadania). Este último ganhou grande espaço na Veja em dois dias seguidos: sexta e sábado. “Temo pela minha vida, diz deputado alvo de ameaças no Amazonas” é a manchete da reportagem da Veja divulgada no sábado 20, quando ele voltou a alegar ser alvo de intimidações após entregar dossiê à Policial Federal, que mostraria envolvimento do alto escalão da segurança do Amazonas com facções criminosas. Amom conseguiu escolta policial, tanto em Brasília quanto no Amazonas, diante das ameaças que estaria enfrentando, mas considera o fato humilhante.
“Precisar desse tipo de proteção é uma derrota pessoal. Vou andar com proteção para andar dentro do meu próprio Estado. É uma humilhação”, afirmou o deputado, que se projetou na política com bandeiras de combate ao tráfico e a facções. “É como se o crime organizado estivesse dizendo: ‘quem manda aqui somos nós’. Acho que o Estado brasileiro não pode se curvar a esse tipo de coisa”, completou, conforme se pode ler na reportagem assinada por Ricardo Chapola, publicado no sábado 20, às 14h10. Durante a entrevista ping-pong (perguntas e respostas), Amom citou os tipos de intimidações que recebeu: “Foram insinuações que atingem a honra de pessoas com as quais me importo. Foram provocações e exposições da intimidade da minha esposa e algumas questões relacionadas a minha própria atuação parlamentar. Temo pela minha vida. Por isso, levei o caso para a PF e solicitei a proteção”.
Em resposta à pergunta “Qual é o grau de relação entre as forças de segurança pública do Amazonas e de políticos com facções criminosas?”, Amom respondeu: “É como se as facções tivessem sequestrado o poder de estado e passado a comandá-lo. Membros das forças de segurança participaram de grupos de extermínio, de ações de chantagem e extorsão de garimpeiros. A atividade criminosa permeia os crimes ambientais, permeia o tráfico de drogas e se assemelha ao funcionamento de milícias. Por isso, pedi ajuda ao presidente da Câmara. Para mim, é uma derrota pessoal. Precisar de proteção para andar dentro do meu próprio Estado é uma humilhação. Por outro lado, foi uma vitória do ponto de vista político, porque entendi que a partir desse momento não estou sozinho. Tenho o Congresso inteiro do meu lado”.
Amom também falou sobre a abordagem da Polícia Militar, quando estava dentro de um carro, em Manaus, no dia 4 de janeiro, caso ainda não totalmente explicado. “Segundo ele, os policiais apareceram de repente, interceptaram o carro e apontaram uma arma para sua namorada. Afirma que a abordagem truculenta não foi obra do acaso, mas parte de um processo de intimidação que vem sofrendo desde que pediu à Polícia Federal, no fim do ano passado, a apuração do dossiê”, escreveu Ricardo Chapola, que também perguntou: “Por que o senhor acha que a abordagem da PM foi uma retaliação?” Resposta de Amom: “Essa ação truculenta foi uma sequência das intimidações e insinuações que já estavam ocorrendo nos dias anteriores, após à denúncia que fiz a PF sobre a ligação da alta cúpula das forças militares com algumas facções criminosas que, aparentemente, se infiltraram na Secretaria de Segurança Pública”.
À IMPRENSA AMAZONENSE, NADA A DECLARAR
Ao comentar o quiprocó entre Amom e policiais (que foi parar numa delegacia), a Coluna do dia 7 de janeiro criticou a atitude do parlamentar, que desmarcou uma coletiva proposta por ele mesmo e preferiu fazer declarações em suas redes sociais. “O deputado esnobou a imprensa do Amazonas, que teve de divulgar a sua versão dos fatos, sem nenhum questionamento”, diz o texto, que também citou declaração dele, em um vídeo: “Preciso do teu apoio para jogar tudo no ventilador”. Sobre tal apelo, a Coluna indaga: “Tudo” o quê?” Sem resposta. Duas semanas depois, uma revista nacional traz entrevista com o deputado. Ou seja: ele ainda não tem nada a declarar à imprensa baré. Ou nada respondeu porque nada lhe foi perguntado? Certo é que essa história apenas começou e a qualquer momento podem surgir novos capítulos.
Quanto ao deputado Silas Câmara, tem um olho em Brasília e outro no Amazonas, mais precisamente no TRE (Tribunal Regional Eleitoral). Em Brasília, na condição de integrante da bancada evangélica, movimenta-se para que líderes religiosos continuem isentos de tributos sobre todos os pagamentos recebidos (um privilégio recebido no governo Jair Bolsonaro, em julho de 2023). A Receita Federal suspendeu o benefício, por determinação do TCU (Tribunal de Contas da União), mas uma questão apenas tributária chegou à esfera política e pode ficar o dito pelo não dito. Silas também é pastor da Assembleia de Deus, está na linha de frente pela manutenção da isenção tributária e seu nome anda bem visível na mídia nacional. Ao mesmo tempo, enfrenta um julgamento de cassação (e corre o risco de interromper a carreira de cinco mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados).
Nesta quarta-feira 24, o processo de cassação do mandato de Silas Câmara será retomado no TRE. O julgamento estava suspenso desde 12 de dezembro de 2023, a pedido do juiz Marcelo Vieira, quando a maioria já havia votado pela cassação. Sobre ele pesam denúncias de captação e gasto ilícito de recursos públicos durante a campanha de 2022, incluindo fretamento de aeronaves. Por outro lado, mesmo se tiver o mandato cassado na quarta-feira, Silas ainda pode recorrer da decisão. A cassação virá somente depois de todos os procedimentos legais. Aí o passo seguinte será uma nova contagem de votos. Consequência: deputado, eleito na mesma coligação, corre o risco de também perder o mandato (enquanto pode ter suplente passando para a condição de titular).
FIM DE UMA LONGA HISTÓRIA?
Ao longo de toda a sua trajetória política, Silas Câmara sempre “frequentou” as páginas de jornais de Manaus, não exatamente de forma elogiosa. Basta uma rápida “visita” em registros da imprensa, para constatar esse fato. Mais de uma denúncia chegou ao noticiário nacional, mas até aqui ele se manteve firme, passando ao largo de todas as acusações expostas na imprensa. Ao mesmo tempo, cultivou um eleitorado fiel, que o conduziu cinco vezes à Câmara dos Deputados. Nesse meio tempo, formou-se em jornalismo pela Faculdade Boas Novas, que é administrada pela família Câmara. Recebeu o canudo em 2017 e comemorou o fato na sua página no Facebook. No site do seu partido (republicanos10.org.br), consta que ele é jornalista, teólogo e graduado em Direito). Não é pouca coisa.
Depois da quarta-feira, a história de Silas Câmara pode ter outro rumo. Ou não. Afinal, ele já venceu muitas outras barreiras. Mas, seja lá o que aconteça, a imprensa estará a postos para fazer o registro, mesmo de longe, seguindo a moda muito bem adotada pelo jovem deputado Amom Mandel.
P.S.
Além de Silas e Amom, o Amazonas elegeu mais seis representantes para a Câmara Federal. Apenas para relembrar que não faltam boas pautas.

