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George Santos é 1º deputado expulso da Câmara dos EUA em 20 anos

Por Folha de São Paulo

02/12/2023 0h05 — em
Mundo



WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS) - O deputado filho de brasileiros George Santos se tornou, nesta sexta (1º), o primeiro republicano a ser expulso da Câmara em toda a história e o primeiro político a perder o mandato sem ter sido condenado antes na Justiça.

Outros cinco congressistas já foram expulsos: três no século 19 por terem apoiado os confederados durante a Guerra da Secessão, e dois desde os anos 1980 por corrupção.

O placar foi de 311 a 114. Entre os republicanos, 105 votaram a favor da cassação e 112 contra. Entre os democratas, apenas 2 votaram contra. Para expulsar um membro, dois terços dos presentes (290, considerando um quórum completo) devem apoiar a medida.

Pouco antes de o resultado ser declarado, mas com o placar já apontando sua expulsão, Santos saiu do Congresso sem responder a perguntas de jornalistas. Ele disse apenas "por que eu gostaria de continuar aqui? Que esse lugar vá para o inferno".

Santos, 35, chamou a atenção após vencer uma disputa acirrada no terceiro distrito, em Long Island, da democrática Nova York no ano passado. Ele foi o primeiro republicano abertamente gay a vencer uma eleição sem ser o incumbente.

O político, porém, logo se tornou motivo de piada nos EUA após uma série de reportagens, investigações criminais e por um Comitê de Ética do Congresso encontrarem evidências de que ele cometeu fraudes, lavagem de dinheiro e desviou recursos de campanha para despesas com itens de luxo, botox e até o site de conteúdo erótico OnlyFans.

O deputado nega irregularidades e afirma ser vítima de perseguição. Falando a jornalistas na manhã desta quinta em frente ao Capitólio, ele disse ser alvo de "bullying".

Aprovada a cassação, a governadora de Nova York, Kathy Hochul, tem agora dez dias para convocar uma eleição especial para substituí-lo. A partir de então, o pleito deve ocorrer em 70 a 80 dias.

Para democratas, a nova eleição é a chance de ganhar de volta a vaga e diminuir a vantagem apertada que republicanos têm na Casa. O antigo representante do distrito, Tom Suozzi, é o nome mais forte do partido pela vaga. Após a expulsão, ele divulgou uma nota em que afirma ser necessário deixar para trás "o apontar de dedo mesquinho, partidário e performativo".

Do lado republicano, os nomes que sinalizaram interesse são Kellan Curry, Greg Hach e Mike Sapraicone.

"É triste remover um membro, mas ele defraudou eleitores do seu distrito. Sua vida foi inventada, era uma mentira. Sua campanha foi um golpe, pegando dinheiro de doadores para seu uso pessoal", afirmou o republicano David Joyce, membro do Comitê de Ética.

Temendo o enfraquecimento de sua maioria, o presidente da Câmara, o republicano Mike Johnson, chegou a sinalizar que votaria contra a expulsão, em uma tentativa de influenciar sua bancada a salvar Santos. Com a cassação, o controle sobre o partido, profundamente fragmentado, fica ainda mais difícil, e complica votações importantes à frente, como o repasse de recursos a Ucrânia e Israel, aliados dos EUA em guerra.

No entanto, pesou para a ala do partido contrária a Santos, especialmente os outros representantes de Nova York, o temor de que a manutenção de Santos no Congresso contaminasse a visão do eleitorado sobre o partido, ameaçando seus assentos na eleição do próximo ano.

Para evitar uma votação, Johnson chegou a conversar com Santos sobre a possibilidade de renunciar ao mandato, mas a ideia foi rejeitada.

Inconsistências na biografia de Santos vão desde afirmações de que seus avós eram sobreviventes do Holocausto a uma suposta carreira em Wall Street iniciada após a conclusão de uma faculdade que afirma não ter registro dele como aluno.

Uma investigação pelo Departamento de Justiça encontrou evidências mais graves contra o político, que resultaram em 23 acusações criminais, de lavagem de dinheiro a roubo de identidade. Segundo o processo, Santos fraudou até seguro-desemprego durante a pandemia, recebendo o benefício mesmo estando empregado em uma empresa --que foi acusada posteriormente de operar um esquema de pirâmide.

O julgamento de Santos está marcado para setembro de 2024.

Como ainda não foi sentenciado, Santos argumentou que sua cassação abriria um precedente perigoso no Congresso. "Isso será a ruína de muitos membros deste órgão, porque isso os perseguirá no futuro, onde meras alegações serão suficientes para remover membros do cargo quando devidamente eleitos pelo seu povo em seus estados e distritos respectivos", afirmou Santos nesta quinta.

A votação desta sexta foi a terceira tentativa de cassar o mandato do político. A primeira, em maio, foi protocolada por democratas e não teve apoio dos republicanos. A segunda, em 1º de novembro, foi uma iniciativa de colegas de partido de Nova York e fracassou por falta de votos do restante da bancada, cujos membros afirmaram preferir esperar a conclusão da investigação do Comitê de Ética.

A divulgação do relatório, um dia após Santos se reunir com uma comitiva de congressistas bolsonaristas do Brasil, gerou enorme repercussão e levou membros dos dois partidos a protocolarem dois novos pedidos de cassação, um de cada lado.

Como republicanos, que são maioria na Câmara, rejeitam expulsar um membro do seu próprio partido por meio de uma iniciativa dos democratas, a única resolução com chance de ser aprovada era a apresentada por Michael Guest, presidente do Comitê de Ética, aprovada nesta sexta.

No Brasil, Santos fez um acordo com o Ministério Público do Rio de Janeiro em um processo de estelionato. Ele confessou o uso de cheques sem fundos que haviam sido furtados de um idoso e fez um acordo para extinguir o processo, concordando com o pagamento de R$ 10 mil a uma instituição de caridade e R$ 14 mil à vítima, o dono de uma loja de sapatos.


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