Yoani participa de um debate em São Paulo
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Por Natalia RAMOS
SÅO PAULO (AFP) - A blogueira e dissidente cubana Yoani Sánchez criticou nesta quinta-feira, em São Paulo, o silêncio do Brasil sobre a questão dos direitos humanos em Cuba, e pediu mais firmeza a Brasília.
Sánchez reclamou uma posição mais energética do governo brasileiro, que estreitou vínculos com Havana durante os governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e sua sucessora Dilma Rousseff.
"Faltou dureza ou franqueza no tema dos Direitos Humanos na ilha. No caso do governo do Brasil, houve silêncio demais", enfatizou, durante um encontro com a imprensa.
Filóloga de 37 anos conhecida por seu blog dissidente "Generación Y", Sánchez chegou na segunda-feira ao Brasil para uma visita de uma semana, a primeira escala de uma viagem de três meses por vários países da América e Europa.
"Esta viagem é uma mudança de vida para mim, apesar de que Cuba, creio, vá precisar de muito mais que a viagem de uma única pessoa. Viva Cuba livre", afirmou, em declarações à AFP.
No Brasil, a cubana foi recebida por muitos admiradores, mas também por manifestantes pró-Cuba, que a classificaram de "mercenária" e "agente da CIA".
"Esperava um pouco de rejeição, mas não com tanta virulência. Eu esperava que as manifestações iriam ser um pouco mais respeitosas", explicou, referindo-se aos protestos ocorridos na cidade de Feira de Santana, na Bahia.
"Nasci num país onde não se pode questionar um homem, por isso gosto que se possa questionar a todos, inclusive a mim", acrescentou.
Sánchez conseguiu permissão para viajar graças a uma reforma migratória em vigor desde janeiro, depois de umas vinte tentativas em que as autoridades a impediram de deixar a ilha.
"Sempre tenho esse dilema em relação ao subsídio venezuelano", respondeu, ao ser consultada sobre as vantajosas condições com que a Venezuela do presidente Hugo Chávez, um aliado-chave de Cuba, envia petróleo para a ilha.
"Não gosto de ter cortes elétricos ou transporte parado por falta de combustível, mas sei muito bem que esse fôlego que o palácio de Miraflores em Caracas dá para a Praça da Revolução se constitui num prolongamento de vida de um sistema que tinha seus dias contados", comentou.
Sánchez afirmou que o governo cubano está preocupado com a possível saída da cena política de Hugo Chávez, e que por isso tenta tímidas aproximação entre Cuba e os Estados Unidos.
A blogueira insistiu em sua postura sobre o fim do embargo dos Estados Unidos contra Cuba: "É o grande argumento que o governo cubano tem para explicar tudo. Eu queria ver em quem vão botar a culpa sem o embargo".
"O problema não é o embargo, é que Cuba não tem dinheiro para comprar nada", acrescentou.
A blogueira afirmou que suas declarações que geraram polêmica sobre os cinco agentes cubanos detidos nos Estados Unidos e condenados a longas penas de prisão por espionagem foram uma ironia.
Sánchez disse na quarta-feira que os agentes deveriam ser libertados para evitar que o governo cubano continue gastando muito dinheiro nesta campanha. Nesta quinta, esclareceu, no entanto, que jamais pediria sua libertação porque "são espiões e assim foram julgados".
Depois de sua primeira escala na Bahia Sánchez viajou na quarta-feira para Brasília, onde visitou o Congresso Nacional a convite da oposição.
Nesta quinta, relançará seu livro "De Cuba, com carinho" em uma livraria em São Paulo.
Depois irá para Argentina, México, Espanha, República Tcheca, Itália, Polônia, Holanda e Estados Unidos.
Sánchez afirma que sua viagem é financiada por doações.

