A morte de Benício Xavier Freitas, de 6 anos, no Hospital Santa Júlia, em novembro do ano passado, ainda está sob investigação no Amazonas e continua a provocar dor. Dor, sobretudo, na família enlutada — mas também em todos aqueles que compreendem o que significa a perda de um ente querido.
A dor de perder um filho, ainda criança, não se mede. Não se compara. É uma experiência que escapa a qualquer parâmetro objetivo e que, por sua própria natureza, não deve ser submetida a gradações ou disputas de intensidade. Quem nunca enfrentou o luto? Quem desconhece o vazio deixado por alguém que, de forma abrupta, deixa de ocupar o espaço cotidiano da convivência?
O caso segue o seu curso. A Polícia Civil do Amazonas instaurou inquérito para apurar as circunstâncias do atendimento prestado à criança.
A médica Juliana Brasil Santos enfrenta o julgamento das redes sociais, que impacta na investigação - que aliás deve estar imune ao "tribunal do povo" e buscar esclarecer eventual responsabilidade penal de todos os envolvidos, além de examinar possíveis falhas na cadeia de atendimento — que podem envolver condutas individuais e protocolos hospitalares.
Paralelamente à investigação, familiares iniciaram diálogo com o senador Eduardo Braga para discutir eventual iniciativa legislativa que priorize o atendimento pediátrico por médicos especialistas em situações de urgência e emergência. A movimentação é compreensível, mas politizar o caso é preocupante. O que está em jogo é a memória de uma criança que precisa descansar.
A Justiça deve decidir com base nos elementos técnicos que emergirem da apuração. Também é importante que o debate público não ultrapasse os limites da prudência institucional, nem produza efeitos que ampliem o sofrimento já existente ou antecipem juízos que cabem exclusivamente ao processo judicial.
Não cabe a revitimização do caso, tampouco o estímulo a censuras antecipadas que excedam os contornos próprios do devido processo legal. E a memória de Benício — que em vida representava alegria, leveza e futuro — merece ser preservada com dignidade.
Permitir que a memória da criança seja guardada com carinho, amor e serenidade, longe do ruído permanente, é uma das formas — não a única — de preservar sua dignidade e aquilo que ela representou em vida
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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