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Políticos, estadistas e meliantes


Por Flávio Lauria

19/08/2025 13h38 — em
Espaço Crítico



Existe uma diferença entre políticos e estadistas que os dicionários não registram. É que ninguém pode ser estadista sem ser político, mas são raríssimos os políticos que conseguem ser estadistas. E isso não ocorre apenas no Brasil, mas em qualquer país. Nessa matéria, nenhum exemplo é melhor do que o dos Estados Unidos, cujos dois últimos estadistas contemporâneos foram Roosevelt e Kennedy, um eleito na década de 30 e outro na de 60.

A constatação, entre nós, é quase tão pobre quanto a da maior potência mundial, já que ninguém ousaria se aventurar a incluir nessa categoria, nos últimos 70 anos, qualquer outro político, além de Getúlio e Juscelino. Ainda assim, com notórias diferenças, já que o primeiro foi ditador e o último, embora exercendo mandato presidencial no curto período de quatro anos, além de ter feito carreira sempre eleito pelo voto direto, (à exceção do primeiro cargo de prefeito de Belo Horizonte, para o qual foi nomeado quando não havia eleições) revelou notória vocação democrática. A condição de chefe de um governo discricionário de Vargas pode, até tornar polêmica a inclusão de seu nome. Mas seguramente, como ele, há alguns poucos chefes de Estado, como é o caso de Mustafá Kemal, o modernizador da Turquia, que fazem jus a essa classificação, mesmo tendo dirigido governos não democráticos.

Trump por exemplo, em seu segundo mandato, é uma obscenidade como político e como estadista. No nosso caso porém, não é só a carência de estadistas. Padecemos de uma grave doença ainda pior que está contaminando a política brasileira, a dificuldade cada vez maior de conseguirmos distinguir, entre os que atuam na política, os políticos dos aventureiros e carreiristas. Em outras palavras, quais os que obedecem às regras não escritas da polidez, do equilíbrio e da tolerância, que são os verdadeiros políticos, daqueles que, na fronteira da delinquência, perderam o escrúpulo, a sensatez e a conveniência, revelando-se incapazes de estabelecer limites entre a ética, sem a qual a política não sobrevive e a chicana que a empobrece até chegarmos ao nível mais lamentável da degradação.

E é aí que reside outra das essenciais diferenças entre o estadista e o político. Este consegue sobreviver nesse meio adverso sem se contaminar. O estadista jamais poderá conviver com esses métodos, sem que seja por eles contagiado. A linha que separa a política partidária, quase sempre rasteira, é incompatível com a política de Estado, que requer respeito, serenidade e sobretudo tolerância, que, no entanto, não se confunde com a intimidade, a molecagem solerte e a chantagem.

Alguns dos personagens mais notórios desse processo selvagem e lamentável que se agravou nos últimos meses não só abastardam o processo político brasileiro, mas, o que é pior, atingem, de forma afrontosa, a dignidade da vida pública, à medida que são tolerados e aceitos. E é isso que transforma a tolerância em conivência. Trata-se de desvios de conduta que, se não forem contidos pela indignação de todos nós, terminarão transformando a mais digna de todas as atividades na mais contaminada de todas as profissões. Se eles conseguirem se impor, já não faltarão só estadistas. Deixaremos de ter políticos que, em sua maioria ainda são dignos, para ceder lugar aos sequestradores da dignidade política do país e aos estelionatários da vida pública.

Por isso, é preciso dar um basta a esses exibicionistas doentios cuja única virtude, lamentavelmente, é a de nos permitir distinguir o que é política do que é delinquência, de que alguns já se tornaram, além de especialistas, notórios adeptos. E é por isso que, pela rejeição de seus métodos que não têm limites, precisam ser banidos e, mais do que isso, execrados, para que exemplos como o deles não venham a se repetir num país que, com tantas carências e desafios, não merece a solércia como método e a chantagem como prática. Neste fim de milênio, é incompreensível estarmos sob o risco de voltarmos à idade da pedra e à selvageria, o único habitat em que essa gente sabe viver.

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