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Delcy Rodríguez consolida seu poder na Venezuela com troca de 40% da cúpula chavista

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, promoveu uma dança das cadeiras em seu gabinete na última quarta-feira, 18. A saída mais surpreendente foi do ministro da Defesa Vladimir Padrino López, homem forte do chavismo que comandava a pasta há mais de uma década.

As trocas buscam dar uma aparência de mudança para o chavismo ao mesmo tempo que reforça seu próprio poder, indicam analistas consultados pelo Estadão . De janeiro para cá, mais de 40% dos nomes do governo mudaram.

Padrino era um dos homens de confiança de Nicolás Maduro, o ditador que foi capturado pelos Estados Unidos em uma operação no dia 3 de janeiro. O ministro controlava há mais de 11 anos a Força Armada Nacional Bolivariana, que funcionava como fiadora política, econômica e militar do poder de Maduro.

Mas ele não foi o único a sair na quarta. Delcy anunciou mudanças em outros seis ministérios (Educação Universitária, Cultura, Trabalho, Transportes, Habitação, Obras Públicas e Energia), fundiu outras pastas e reacomodou nomes dentro de secretarias, diretorias e serviços de inteligência.

Chavistas proeminentes foram reacomodados. Foi o caso do ex-procurador Tarek William Saab, que deixou o cargo após a captura de Maduro, e agora assumirá um programa governamental dentro do próprio gabinete presidencial.

O próprio Padrino López deve ser reacomodado, segundo deu a entender a presidente, sem dar mais detalhes. Cientistas políticos veem nos movimentos um jogo de xadrez que parece indicar um grande acordo entre as figuras centrais do chavismo na época de Maduro e possível lealdade à Delcy.

"Isso parece fazer parte do processo de estabilização proposto por Marco Rubio", avalia o cientista político venezuelano Xavier Rodríguez Franco. "Ao fazer vários movimentos dentro da cúpula do governo para manter certo caráter de estabilidade e uma governabilidade mínima neste processo de transição."

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciou ainda nos primeiros dias de janeiro um plano para a Venezuela em três etapas: estabilização, seguida de uma recuperação da economia e por último uma transição para a democracia.

Analistas ressaltam, no entanto, que a dança das cadeiras de Delcy envia péssimos sinais para a última fase. "Ao remover Vladimir Padrino como ministro da Defesa depois de mais de uma década, certamente remove um ator que obstruía o plano que a Casa Branca tem para a Venezuela. Também remove um aliado importante de Diosdado Cabello e diminui sua capacidade de influência dentro da gestão do chavismo", prossegue Franco.

Diosdado Cabello é o atual ministro do Interior e era o número dois de Maduro. Ele é a apontado como a mente por trás dos grupos paramilitares venezuelanos. Junto com Padrino e Delcy, ele é um dos pilares do chavismo.

"Existe um movimento interno onde a ala de Cabello perde influência e o gabinete é recomposto com outras figuras que lembram um pouco as do chavismo civil", aponta o cientista político.

Parece que a intenção de Rodríguez é dar a ideia de um chavismo reformista, que quer fazer algum tipo de desenvolvimento e modernização do país, com o recurso do petróleo, como uma espécie de lavagem de cara, fazendo nomeações que buscam se firmar mais na ala civil do chavismo original, dos primeiros anos de Hugo Chávez. Teremos que ver até que ponto Washington permite isso a longo ou médio prazo.

Irmãos Rodríguez

"Outra coisa que fica muito clara é que essa mudança [de Padrino] consolida os Rodríguez como o principal fator ou facção do chavismo nesta primeira etapa", argumenta Rodríguez Franco.

Delcy era a vice-presidente de Maduro e foi mantida no poder pelos Estados Unidos justamente para evitar uma desestabilização que a retirada abrupta do chavismo poderia causar, o chamado vácuo de poder. Ela governa hoje sob tutela de Washington.

Além dela, outra figura chave é seu irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional. Ele é apontado como o arquiteto do chavismo sob Maduro. Foi ministro e chefe de campanha do ex-ditador durante as controvertidas eleições de 2024 e era a ponte entre o chavismo e a oposição. Juntos, os irmãos controlam ao mesmo o Executivo e o Legislativo do país.

Segundo María Isabel Puerta Riera, cientista política e professora no Valencia College da Flórida, a saída de Padrino e a dança das cadeiras devem dar o tom do "interinato" dos irmãos Rodríguez.

"Até agora, não há nada que indique que há um processo de transição democrática, em todo caso, há medidas transitórias de liberalização econômica que servem aos propósitos da agenda pessoal de Trump, e os Rodríguez se beneficiam porque isso lhes dá tempo para trabalhar na sua consolidação política", diz.

Acredito que os Rodríguez estão se aproveitando para limpar o terreno político, prevendo que os resultados das eleições nos EUA enfraqueçam ainda mais Trump no plano doméstico. Nesse cenário, eles podem trabalhar na consolidação de seu modelo autocrático, porque Trump será oficialmente um pato manco.

Ministro repressor

Neste projeto, a escolha do novo ministro da Defesa merece ser olhada com atenção. Gustavo González López, que foi nomeado no lugar de Padrino, é uma figura de baixo perfil midiático. Pouco conhecido fora dos círculos do chavismo. Mas é uma peça fundamental da engrenagem do regime, atuando como repressor.

Ele já foi ex-diretor do Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional), conhecido por ser o órgão de repressão do regime. Após a captura de Maduro, ele foi designado diretor da Direção Geral de Contrainteligência Militar, um órgão apontado pela ONU como responsável por torturas.

"Desde os protestos de 2013 a 2017, ele foi uma figura conhecida entre o aparato repressivo venezuelano. Desempenhou um papel-chave na execução de uma boa parte dos crimes contra a humanidade", aponta Xavier Rodríguez Franco.

"Parece ser uma figura pragmática, que pode estar propondo um cenário onde se consolida a posição de força dos irmãos Rodríguez. Diz-se que é próximo de Jorge de alguma forma", conclui.

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