Polifônica Cia. faz dez anos com adaptações de Roberto Bolaño e Édouard Louis
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Ao completar 10 anos, a Polifônica Cia. consolida-se como um dos grupos teatrais mais originais e premiados do país, destacando-se por sua capacidade de transfigurar grandes obras da literatura contemporânea em experiências cênicas inovadoras onde vida e arte se entrelaçam de forma tão radical quanto nos textos de Roberto Bolaño, um de seus interlocutores recentes.
Fundada em 2015 pelo diretor e dramaturgo Luiz Felipe Reis e pela atriz e performer Julia Lund, a companhia construiu uma história marcada por reconhecimento artístico e crítico, com espetáculos que desafiam a linearidade narrativa, privilegiando a força da palavra em diálogo com dispositivos visuais e performáticos.
O ano de 2025 encontra a Polifônica em plena atividade criativa. Enquanto prepara a estreia de "Deserto" no Sesc Santana, em São Paulo, no dia 18 de julho, "Eddy Violência & Metamorfose" segue em cartaz no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro. Espetáculo que além de celebrar a primeira década da companhia, representa outro eixo fundamental da pesquisa da Polifônica: como o corpo registra a violência.
Com as atuações de João Côrtes, Julia Lund e Igor Fortunato, a peça baseada na obra de Édouard Louis aprofunda questões presentes em montagens anteriores, como "Amor em Dois Atos", de 2016, e "Tudo que Brilha no Escuro", de 2020. Essa dupla programação revela não apenas a vitalidade do grupo, mas sua vocação para dialogar com vozes literárias distintas.
"Deserto" chega a São Paulo já com um histórico de reconhecimento três indicações ao prêmio APTR e uma ao prêmio Shell, refletindo a maturidade da linguagem da Polifônica. A encenação investiga Bolaño não como uma biografia linear, mas como um mosaico cênico onde escritor e personagem se confundem. Monólogos interrompidos, projeções de texto e movimentos em slow motion compõem uma dramaturgia fragmentada, espelhando a estética do autor chileno.
Sobre a gênese do projeto, Luiz Felipe Reis explica: "O fascínio pela obra de Bolaño começou com 'Os Detetives Selvagens' e se intensificou com '2666'. O projeto original era encenar '2666', mas diante das dificuldades, reimaginei uma dramaturgia mais especulativa sobre seus últimos anos de vida, enquanto ele lidava com uma doença hepática e finalizava sua obra-prima. Me interessava essa tensão entre criação e destruição, Eros e Tânatos, que atravessa nossa trajetória e a dele."
Renato Livera, protagonista da peça, reflete sobre o processo. "Talvez o mais importante para nós nessa montagem fosse levantar a questão do estado de poesia no ser humano. Bolaño estava atravessado por camadas políticas e pessoais brutais. A arte surge como ressignificação da vida são 'os músculos da poesia', como ele diz, que iluminam o caminho até o limite da matéria humana."
A abordagem do grupo é emblemática de sua filosofia: em vez de adaptar, cria diálogos profundos entre literatura e teatro. Em "Deserto", cenas íntimas justapõem-se a trechos de suas obras, além de palestras fictícias abruptamente interrompidas.
A encenação radicaliza a ambiguidade do autor ser de carne e tinta através de dispositivos que questionam a autoria: seja nos closes iluminados que isolam gestos mínimos do ator, seja no uso de câmeras que registram e projetam a ação em tempo real. Quando palavras projetadas num telão contradizem o discurso do ator, ou quando Renato Livera interage com sua própria imagem filmada ao vivo, o espetáculo nos lembra que o "Bolaño" em cena é sempre uma construção.
Essa linguagem visual dialoga intensamente com o cinema, recursos técnicos que ecoam a obsessão bolañiana por dispositivos de registro como testemunhas precárias contra o esquecimento. A cena em que o personagem grava uma mensagem para o filho é paradigmática: o vídeo funciona como cápsula do tempo de um pai que sabe não verá seu filho crescer.
"A diversidade da linguagem em 'Deserto' vem dessa pluralidade de ferramentas audiovisual, sons, luz. É um campo vasto de comunicação, com protestos, cartas, ensaios. Esses universos que atravessavam Bolaño são parte da peça.", diz Livera. E o diretor detalha: "Desde 2015, pesquiso Polifonia Cênica e Contra-cenas ao Antropoceno. Em 'Deserto', articulamos teatro, literatura, vídeo e som para questionar o lugar da arte num mundo neoliberal."
"Para além do trabalho com o corpo, com o texto e a com a atuação, portanto, buscamos potencializar a dimensão visual e sonora do evento teatral, algo que marca a experimentação teatral contemporânea, mas que igualmente constitui o teatro clássico, grego, concebido justamente como somatória do "espaço da visão", o theatron, e do "espaço da audição", auditorium.
Sobre a colaboração com Livera, Reis destaca, "precisávamos de um ator-performer com energia específica, algo entre Bolaño e os personagens de 'Os Detetives Selvagens'. O Renato trouxe não só atuação, mas contribuições para a dramaturgia. Trabalhamos na fricção entre texto e corpo, sem buscar mimetismo."
O ator acrescenta: "Com Luiz, havia um espaço seguro para vagar no abismo da incerteza. Essa co-criação entre intérprete e diretor foi vital. 'Deserto' tornou-se um projeto que dialoga com minha necessidade artística de refletir sobre a América Latina. Acho que se fosse somente para decorar um texto e interpretar, talvez não me interessasse muito."
"O que resulta [dessa co-criação] é um Bolaño indissociável do performer e da pessoa Renato Livera. O corpo do Renato, sua personalidade, suas memórias, tudo é atravessado pelas palavras do Bolaño e resultam numa terceira coisa, que não é nem só Bolaño e nem só Renato, mas o resultado dessa transfusão", conclui o dramaturgo.
Em meio às duas encenações, a Polifônica já prepara "Banzeiro", adaptação do livro de Eliane Brum prevista para 2026. "Não queremos apenas adaptar textos, mas criar um espaço onde a palavra escrita e a linguagem teatral se encontrem em pé de igualdade", conclui Reis.
Entre prêmios e uma programação que não para de crescer, a Polifônica celebra sua primeira década de existência como um coletivo que prospera no cenário cultural brasileiro. Seja através de Bolaño, Louis ou Brum, o grupo mantém viva uma pergunta essencial: como transformar grandes narrativas em experiências cênicas que falem diretamente ao nosso tempo?
A resposta está na coragem de experimentar e na ousadia de, como em "Deserto", escrever entre o biográfico e o ficcional, e na crença de que o teatro ainda é um espaço privilegiado para refletir sobre quem somos.
DESERTO
- Quando Sextas e sábados, às 20h; domingos, às 18h. Sessão gratuita para pessoas a partir de 60 anos, 15/08, às 15h.
- Onde Sesc Santana - av. Luiz Dumont Villares, 579 - Santana, região norte
- Preço A partir de R$ 18 (credencial plena)
- Classificação 16 anos
- Autoria Luiz Felipe Reis
- Elenco Renato Livera
- Direção Luiz Felipe Reis
- Acessibilidade Audiodescrição e Intérprete de Libras
ASSUNTOS: Arte e Cultura