Meu remédio foi o livro, diz influenciador 'Menino do Vício', que superou as drogas lendo
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Lucas Henrique dos Santos da Silva, mais conhecido nas redes sociais como 'Menino do Vício', era dependente químico desde os 18 anos. Hoje, aos 26, ele transformou sua luta contra as drogas em incentivo à leitura no TikTok e conquistou mais 250 mil seguidores contando como os livros foram seu remédio para lidar com a abstinência.
"Pensei: vou comprar um livro, pelo menos gasto o dinheiro e não compro mais droga e me distraio", explica o influenciador à Folha de S.Paulo. Em seu perfil, ele também passou a compartilhar como está redirecionando seus gastos com os antigos vícios maconha, cocaína, ecstasy e álcool para comida e livros.
"Sempre tive problema com vício a vida inteira. Antes da droga, era vício em jogo, compulsão alimentar. Então pense em menino do vício: vai ser diferente, autêntico. Vai ser minha assinatura", explica. Ele conta que muitos seguidores o conhecem apenas assim: "Na live, o pessoal fala: Nem sei seu nome, para mim é Menino."
Silva grava conteúdo sobre sua trajetória e livros para o TikTok desde 2022, quando decidiu pela primeira vez abandonar as drogas. Mas, nesse meio tempo, houve recaídas. Hoje, ele conta estar totalmente limpo desde fevereiro. "Eu já tinha uma conta, então fiz como se fosse um diário, mostrando como minha recuperação".
A possibilidade de influenciar alguém a deixar as drogas também foi outro motivador para fazer os vídeos. "Vou mostrar que não é o fim do mundo largar e vencer a abstinência, porque o medo do povo é a abstinência", explica o booktoker.
Ele conta que durante o ensino médio um livro que o encantou foi "Crepúsculo", pela semelhança com os filmes que já havia assistido, mas que havia perdido o habito durante o período de adição. Passou. Só em 2025, após ter parado com as drogas, ele diz já ter lido por volta de 40 a 50 livros.
Além de resenhas das obras lidas, ele mostra também os livros que ganhou de presente das editoras, que o descobriram e passaram a enviar lançamentos para a sua casa. Também faz parte de seu conteúdo uma lista de quantas e quais foram as últimas leituras e até memes sobre os livros. "É bacana, porque além de incentivar a pararem de usar droga, que era o meu foco, está incentivando a galera a ler."
O apoio que recebe nas redes o deixou surpreso: "A internet tem o lado ruim e o bom e eu recebi o lado bom. O lado ruim é mínimo", conta. O influenciador diz que os comentários de ódio ou críticas são mínimos no seu perfil.
Silva, que é morador da cidadezinha de Jussara, no Paraná, também foi convidado para visitar a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, que aconteceu entre 13 e 22 de junho. Lá, ele teve a oportunidade de conhecer o seu ídolo da literatura: o escritor e roteirista Raphael Montes, 34, autor de "O Vilarejo", "Dias Perfeitos", "Jantar Secreto" e "Bom Dia, Verônica", entre outros sucessos editoriais.
"Quando eu o descobri, foi como achar um pote de ouro", relembra. Seus gêneros favoritos são o suspense e o terror, principalmente os livros com histórias cheias de reviravoltas e toques macabros. "O Raphael é o nosso Stephen King brasileiro, né? Ele é o cara".
No evento, além de interagir com diversos autores, o booktoker também conta que ficou surpreendido ao ser abordado por seguidores. Segundo ele, por volta de 80 pessoas pararam para pedir fotos, conversar ou só o cumprimentar. "Quando alguém pedia para tirar foto comigo, eu também pedia para tirar outra no meu celular porque queria fazer um vídeo agradecendo todo mundo que parou para me dar uma atenção."
Apesar de ter o seu gênero preferido, Silva se diz bem eclético: já leu autoajuda, drama, ficção e literatura LGBT. "Leio de tudo", resume. O momento de leitura também varia ele explica que depende do humor. Não é uma obrigação. Depende muito. "Tem dia que eu nem leio, para ser sincero. Outro, leio um pouco de manhã, às vezes a tarde toda ou mesmo de madrugada."
Já o Kindle, que ganhou de presente de outro influenciador que também fala sobre adição, ainda não começou a usá-lo. "Vai ter a hora certa de ele brilhar ainda." Ele explica que fica tentado a ler as dezenas de livros ainda intocados de sua coleção, além de gostar de folhear as páginas, grifar citações marcantes e anotar seus pensamentos. "Antes eu tinha dó até de grifar, mas é legal como se fosse você deixando nos comentários numa rede social".
Para além das lives, o influenciador já tentou criar um clube do livro ou pelo menos um grupo no WhatsApp para trocar opiniões mas ainda quer acertar a fórmula. "Eu vou tentar de novo. Quero botar em dia as fofocas literárias", brinca.
Para o futuro, além de crescer como criador de conteúdo, ele quer ajudar clínicas de reabilitação com doações de livros. Estudar psicologia para ajudar aqueles que estão passando por um vício, assim como ele já passou, é outro sonho.
Hoje, ele já escreve sua autobiografia. "Nada melhor do que alguém que já passou por isso para dizer: não desista. Um dia, meu livro pode chegar na mão de quem precisa ler e se inspirar."
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Veja uma lista com 5 dos livros favoritos do Menino do Vício
Jantar Secreto (Raphael Montes)
"É sensacional, muito bizarro. Por mais que tenha o canibalismo como tema, trata disso de um jeito escondido, sabe? Fala dessa elite que paga para comer carne humana brasileira, mostra o sumiço de corpos, gente sendo pega para virar carne. É tudo meio dark web, bem estratégico para polícia não descobrir. Tem atrocidade atrás de atrocidade, mas também tem umas partes engraçadas. É perfeito para quem gosta de terror, thriller, bastante sangue e umas risadas no meio."
Misery (Stephen King)
"É sobre um autor que se acidenta na neve e quem o encontra é a sua fã número um. Só que ela é tão obcecada que, além de cuidar dele, sequestra ele em casa e força ele a escrever do jeito que ela quer. Ela não gostou do final? Manda mudar na marra. Não deixa o cara sair de jeito nenhum, transforma a vida dele num inferno. É muito bom para quem curte suspense." [O livro foi adaptado para o cinema em 1990; 'Louca Obsessão' rendeu um Oscar a Kathy Bates].
Verity (Colleen Hoover)
"É outra pegada suspense também. A mulher é contratada para terminar os livros da Verity, que ficou paraplégica e não escreve mais. Só que, quando vai morar lá, vai percebendo que tem coisa muito estranha acontecendo, que não é só isso. Vai descobrindo segredos, reviravolta atrás de reviravolta, cena chocante atrás de cena chocante. É muito plot twist, muita coisa bizarra que você vai ficando horrorizado."
Suicidas (Raphael Montes)
"É sobre um grupo que decide jogar roleta russa, cada um tem seu motivo. Vai alternando o tempo da história com a investigação da polícia com as mães dos meninos. Tem um diário de um dos participantes que vai contando tudo o que rola, cada barbaridade absurda. Você lê e não quer parar de jeito nenhum."
Os Sete Maridos de Evelyn Hugo (Taylor Jenkins Reid)
"É o mais 'light'. Ele mostra a história de uma mulher que fez de tudo para subir na elite hollywoodiana. Ela casou sete vezes, até chegar no topo, e ela vai contando cada uma dessas histórias para uma repórter. A Evelyn era bem requisitada, não queria falar com ninguém, mas quis essa repórter em específico para contar sua história. No final, você descobre o porquê."
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