Festival de arte eletrônica reúne obras feitas com IA para debater a sociedade
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Enquanto museus e galerias ainda enxergam com ressalvas a arte produzida com o auxílio da inteligência artificial, o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica vai na contramão ao abraçar esse tipo de produção.
Realizado na capital paulista, o File, como é conhecido, chega à sua 24ª edição reunindo 97 obras. Alguns desses trabalhos não apenas desafiam a centralidade do ser humano no fazer artístico, mas também usam a tecnologia para refletir sobre a sociedade.
Foi isso que fez o artista visual Craca ao criar a instalação sonora "Ouvir", um dos destaques da mostra. Em uma parede, dezenas de alto-falantes foram conectados uns aos outros por meio de fios pretos, formando uma estrutura que lembra sinapses cerebrais. No interior da sala expositiva, há duas esculturas com o formato de tímpano que trazem pequenos microfones em suas extremidades.
A ideia é que o visitante primeiro emita uma melodia no dispositivo, como um assobio. Em seguida, essa frequência sonora é armazenada na memória de um sistema projetado por meio de inteligência artificial. Após alguns segundos, os alto-falantes fazem ecoar sons baseados naquilo que a pessoa emitiu lá no começo.
Não se trata, porém, de uma reprodução fiel. Isso porque o sistema forma o som reconfigurando frequências sonoras que já estavam armazenadas em sua memória interna. É o chamado machine learning, isto é, um mecanismo por meio do qual as máquinas oferecem respostas mais complexas conforme acumulam novas informações.
"O trabalho vai criando um léxico próprio, uma espécie de dicionário de melodias", diz Craca. "Conforme o tempo passa, o sistema vai tendo um dicionário maior, de modo que cada vez menos ele só imita a gente e cada vez mais responde com o que já sabia."
De certa forma, é uma obra que dialoga com as vanguardas que chacoalharam a arte brasileira durante os anos 1950 e 1960.
Nesse período, artistas como Lygia Clark e Hélio Oiticica tiraram o espectador da posição de passividade a que ele foi confinado pela arte tradicional e o elevaram à condição de coautor da produção artística. Clark fez isso com os seus "Bichos", já Oiticica pôs o conceito em prática com seus célebres parangolés.
Por outro lado, a ausência da interação com o público faz com que as obras percam parte do sentido. Com o trabalho de Craca não é diferente.
Sem que alguém apresente um novo som, a instalação acaba reproduzindo uma frequência monocórdica pouco agradável. Isso acontece porque o sistema acaba empobrecendo de tanto ouvir a si mesmo.
É um lembrete sobre a importância de opiniões dissonantes e um alerta sobre os perigos de viver em bolhas virtuais. "Esse foi um grande debate político que eu tentei trazer. Falar as mesmas ideias para uma mesma comunidade gera essa monotonia de uma nota só", diz o artista, pouco antes de assobiar no microfone uma nova melodia. "Se não tem a interferência de informações novas vindo de fora, vira uma bolha. É insuportável e a obra vai ficando chata."
Craca considera importante usar a tecnologia para refletir sobre o mundo em que vivemos. "A gente tem que se apropriar dela para que ela não se aproprie da gente", diz o artista, para quem a IA representa um ponto de inflexão. "Ela é a pólvora do século 21. Pode ser usada para fazer coisas fantásticas e salvar milhões de vidas, mas, ao mesmo tempo, ser utilizada para matar milhões de pessoas."
Essa natureza ambivalente da tecnologia está evidente também em instrumentos de controle, como câmeras e dispositivos de reconhecimento facial.
Se por um lado aumentam a segurança, por outro desvelam dinâmicas de opressão. É o que acontece, por exemplo, na implementação do reconhecimento facial na segurança pública. Especialistas temem que o número de pessoas negras presas injustamente aumente. Isso porque esses sistemas são treinados principalmente com rostos brancos, o que reduz a acurácia na identificação de pretos e pardos.
A instalação "Veillance", do canadense Louis-Philippe Rondeau, é uma das obras da exposição que tensionam esses mecanismos de vigilância. Trata-se de um scanner que registra o corpo dos visitantes, como aqueles usados em aeroportos. No entanto, a imagem que se revela na tela é distorcida, esvaziando e subvertendo a funcionalidade desses dispositivos.
O que era para ser um instrumento de controle vira um objeto quase lúdico. "É uma brincadeira com essa ideia de vigilância e com o fato de a gente estar o tempo todo sendo filmado", diz Rondeau, enquanto faz os ajustes finais no trabalho. "O meu objetivo foi reassumir o controle sobre os aparelhos de segurança, mas, ao mesmo tempo, criar algo divertido."
Enquanto Craca e Rondeau pensam sobre o avanço da tecnologia, o artista chinês Zhang Weid usa a inteligência artificial para refletir sobre a memória. Batizado de "ReCollection", o trabalho é composto por uma tela de projeção e por um microfone no qual o visitante deve contar de forma sucinta uma recordação.
Após alguns segundos, a inteligência artificial recria essa lembrança por meio de uma simulação exibida na tela. A cena tem o aspecto frágil, onírico e evanescente tão característico das memórias.
Para Paula Perissinotto, que fundou o evento ao lado de Ricardo Barreto, a fragilidade da memória é justamente um dos principais entraves para a valorização de trabalhos feitos com IA. Isso acontece porque obras concebidas nos anos 2000, por exemplo, desapareceram após o fim dos softwares em que elas operavam. "A construção de memória legitima e dá valor à arte, mas esse processo ainda é um desafio."
Outro entrave, diz Perissinotto, é a falta de formação especializada nas universidades. De acordo com ela, os cursos oferecem algumas disciplinas sobre arte e tecnologia, mas não se aprofundam no tema.
Esse cenário faz com que o mercado disponha de poucos profissionais dedicados ao assunto, o que dificulta a entrada dessa produção em museus e galerias. "Um curador ou um arquivista não vão dar um passo em direção àquilo que eles não dominam", diz ela. "A falta de formação é um vácuo que acontece por falta de vontade política."
Esses fatores ajudam a explicar por que a arte feita com auxílio de IA ainda é vista como uma produção menor dentro do mercado artístico. Mas há ainda outro empecilho.
Muitas pessoas consideram que essa produção não pode ser entendida como arte por diminuir o protagonismo do ser humano sobre o fazer artístico. Perissinotto, no entanto, pensa de outra forma. "O artista, o recorte humano e olhar crítico continuam presentes", diz ela. "Acho que todos nós devemos enxergar a inteligência artificial como algo que vai potencializar as possibilidades, e não neutralizá-las."
FILE FESTIVAL INTERNACIONAL DE LINGUAGEM ELETRÔNICA
- Quando Ter., a dom., das 10h às 20h. Até 7 de setembro
- Onde Centro Cultural Fiesp Avenida Paulista, 1313
- Preço Gratuito
- Classificação Livre
ASSUNTOS: Arte e Cultura