Coletivo Opavivará põe o público na posição de artista em mostra imersiva
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nos anos 1960, a arte brasileira se voltou contra a pintura ao defender a primazia do objeto tridimensional. Mais do que isso. Aquela geração, formada por nomes como Lygia Clark e Hélio Oiticica, argumentava que as obras não deviam ser apenas contempladas, mas também manuseadas pelo público, rompendo com a atmosfera de sacralidade que pairava sobre o fazer artístico.
Seis décadas depois, essas proposições ganham novas formas pelas mãos do coletivo Opavivará, que reúne 30 obras na mostra "Quem Viver Vivará", na galeria Gentil Carioca, em São Paulo.
Na mostra, o quarteto formado por Julio Callado, Domingos Guimaraens, Ynaiê Dawson e Daniel Toledo convida o público a sair da posição de observador e ocupar o lugar de agente das ações. Foi isso que eles fizeram em "Rede Social", trabalho em que costuraram seis redes uma ao lado da outra para que o público deite sobre elas. Na alça dos tecidos, os artistas penduraram chocalhos feitos a partir de tampas de garrafas.
Inspirada na "Cosmococa", de Oiticica, o trabalho é uma síntese do caráter imersivo e coletivo que caracteriza o grupo. "A gente optou desde o início por construir uma poética diluída de individualidades, entendendo que a arte é mais uma rede em que estamos todos conectados."
Essa diluição da autoria não vale somente para obras de arte. Durante a entrevista, os artistas pediram para serem identificados pelo coletivo, e não por seus nomes individuais. "Não se trata de esconder a nossa identidade, mas trabalhamos juntos há tanto tempo que as nossas ideias se misturam", dizem eles.
Essa polifonia está presente em obras como "Karaokente" --fogão em que os artistas instalaram quatro microfones para que o público cante junto, como se estivessem num karaokê. "A obra só acontece quando há interação. O público também faz parte da nossa ficha técnica. Quando a pessoa está ali cantando, ela passa a ter protagonismo. Ela vira artista também."
O senso de coletividade do grupo, porém, foi posto à prova durante a pandemia. Nesse período, eles entraram em hiato porque não queriam fazer atividades online. "A gente ocupa um lugar de pele com pele e troca de fluidos, o que se tornou impossível na pandemia." Para eles, a interação na arte está em baixa como consequência da crise sanitária.
"Houve uma encaretada e uma valorização de técnicas tradicionais, como escultura, cerâmica e pintura, que tendem a ser mais individualizantes."
Formado em 2005, o coletivo tem obras em acervos de instituições renomadas, como Guggenheim, em Nova York, e Museu de Arte Moderna de São Paulo.
O quarteto costuma produzir obras a partir de materiais banais, como fogões, saboneteiras, panelas e colheres, itens que eles chamam de objetos relacionais. "A gente sempre usa elementos do cotidiano, coisas que são muito reconhecíveis. Essa é uma forma de aproximar as pessoas e de evitar hermetismos."
Após intervenções dos artistas, peças que eram de uso individual passam a ser coletivas. Em uma das obras da mostra, eles uniram dois cachimbos para que o público fume junto.
Intitulado "Isto é um Cachimbo", a obra faz referência à célebre pintura "A Traição das Imagens", de René Magritte. Já em "Aguardente", um bidê que libera cachaça em vez de água, eles dialogam com a "Fonte", o famoso urinol de Duchamp
"A história da arte é a nossa escola, mas a gente gosta de repensar essa história e propor um fazer artístico que a subverta", dizem eles, acrescentando que essas apropriações foram influenciadas pela tropicália e pelo movimento antropofágico.
"São movimentos que falam de uma apropriação do que é importado para criar uma estética própria. É como um desfile de Carnaval, que pode usar referências africanas, indígenas ou barrocas."
O exercício de subversão se estende também à funcionalidade de utensílios domésticos. A exemplo do que fizeram com o bidê, eles transformaram sete saboneteiras em instrumento etílico, armazenando dentro delas drinks de diferentes cores.
"A casa é um lugar íntimo, mas também pode ser um espaço de opressão para determinado grupos", dizem eles, referindo-se a mulheres e pessoas negras. "A cozinha, por exemplo, foi usada como um lugar de controle e separação. Então, a nossa ideia é transformar máquinas de trabalho em máquinas de prazer."
QUEM VIVER VIVARÁ
Quando Ter. a sex., das 10h às 19h. Sáb., das 11h às 17h. Até 8 de março
Onde A Gentil Carioca - tv. Dona Paula, 108, São Paulo
Preço Gratuito
Classificação Livre
ASSUNTOS: Arte e Cultura