Caetano Viela recupera a natureza oral da 'Odisseia' em peça que abre novo teatro
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Vários pedestais brancos ocupam a sala de teatro, distribuídos sobre um grande mapa que estampa o chão. Cada um desses cavaletes expõe um objeto. Uma sandália prateada aqui, uma lira ali. Um bonsai e, no outro canto, uma espada, uma seta e o sangue que será utilizado em sacrifícios vindouros. Antes de os atores chegarem, o público é convidado a circular pelo ambiente, mais semelhante a uma exposição de arte.
Para recontar a "Odisseia", o diretor de teatro e iluminador Caetano Vilela quis trazer de volta a oralidade dos cantos homéricos, feitos para serem entoados ao som da lira. Para isso, leu para seus dois atores, Diego Machado e Thiago Brianti, pedaços da tradução do português Frederico Lourenço, já mais fluente, e escolheu com eles os itens mais memoráveis da trama. Ao estilo do teatro de objetos, cada um deles ajudará Machado e Brianti a contar a história de Ulisses, enquanto incorporam diferentes personagens da trama homérica.
Atuam, durante boa parte da peça, em meio a uma névoa, como a lançada por Atena em Ítaca para ajudar o herói em sua vingança. Um telão de LED disposto no teto, sobre a perspectiva da plateia, complementa os efeitos especiais junto ao desenho de luz. Dois músicos, Ivan Garro e Gylez Batista acompanham os atores no palco.
Num dos momentos mais tresloucados da peça, Machado interpreta Ulisses, amarrado ao mastro do navio para ouvir com segurança o canto das sereias, enquanto seus companheiros, ali apenas imaginados, entopem os ouvidos com cera. Garro deixa a bateria que tocava até então para manipular um teremim, instrumento musical que dispensa o toque, de som hipnótico e extraterrestre, transformado no canto das quimeras assassinas.
"Odisseia: Instalação para um Retorno" foi pensada para inaugurar o Teatroiquè, estúdio de cinema do produtor Ricardo Grandi localizado no Butantã que passa a receber também espetáculos e eventos.
"Eu queria que as pessoas vissem o teatro como ele é", diz Vilela. "Não queria disfarçar aquele espaço como se fosse um palco italiano tradicional. E queria que o público entrasse lá e tivesse essa vivência de um espaço sendo descoberto. Acho que tem um pouco isso quando a gente é espectador de museu."
O diretor releu a "Odisseia" durante a pandemia de Covid-19 período que ele diz ter transformado sua visão sobre a arte. Desde então, desejava levar a história ao palco. "Eu queria voltar para essa simplicidade de contar uma história. Temos que nos voltar para coisas que nos toquem, coisas mais simples."
Apesar de "Odisseia" ser a primeira peça do Teatroiquè, o espaço tem passado. Ele já existia como Estúdio Iquirim e havia recebido gravações de cenas de Shark Tank Brasil, propagandas para grandes marcas e até um especial do Caldeirão do Huck. Garin, dono do espaço junto com sua família, não descarta a possibilidade de o espaço abrigar novas filmagens quando não estiver com temporadas de teatro em cartaz.
O conjunto não passou, aliás, por grandes transformações para a nova etapa. A sala de gravações consegue acolher diferentes tipos de espetáculos, e os dois bares disponíveis para o público, no subsolo e na cobertura, bem como os camarins, já atendiam a eventos e às equipes de filmagem que trabalhavam ali. "Num estúdio cabe qualquer coisa, inclusive um teatro", ele gosta de dizer.
Grandi considera, ele mesmo, viver uma odisseia. Trabalhava com audiovisual até sofrer um acidente e ficar tetraparético, condição que enfraquece todos os membros e dificulta o movimento. Acabou trocando o set de filmagem pelos bastidores. Passou a cuidar de direitos autorais, a assessorar talentos e, no começo dos anos 2000, decidiu investir em seu estúdio.
Seu novo teatro é, também, a tentativa de criar um lugar acolhedor, em que ele possa assistir a uma boa programação e tomar uma com os amigos. Na última quarta-feira, ao receber convidados para uma pré-estreia, repetia aos companheiros: a partir de agora, o encontrariam ali. Quer que mais gente também adote seu teatro como um ponto de encontro.
"Se a entrega for boa, as pessoas vêm. Nós estamos do lado da estação de metrô, num lugar que é fácil de estacionar. Estou tratando como uma aposta que espero que seja bem-sucedida", afirma.
ODISSEIA: INSTALAÇÃO PARA UM RETORNO
- Quando Sex. e sáb., 22h e dom., 16h e 18h. Até 3 de agosto
- Onde Teatroiquè - Rua Iquirim, 110, São Paulo
- Preço R$ 140
- Classificação Livre
- Elenco Diego Machado e Thiago Brianti
- Direção Caetano Vilela
ASSUNTOS: Arte e Cultura