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Bailarino questiona o lugar dos corpos negros na dança contemporânea em Avignon

Por Folha de São Paulo

08/07/2025 16h15 — em
Arte e Cultura



AVIGNON, FRANÇA (FOLHAPRESS) - "Am I black enough for you?", o bailarino e coreógrafo Leandro de Souza pergunta, em inglês, se é negro o suficiente. O questionamento é o verso de uma canção, composta nos anos 1970, pelos americanos Kenny Gamble e Leon Huff, que se tornou conhecida na voz de Billy Paul.

De cócoras num cenário que emula o cubo branco das galerias de arte, o bailarino repete a questão sem parar, até que sua voz soe como mantra e se decomponha em variações da pergunta inicial. O espetáculo "Eles Fazem Dança Contemporânea", criado pelo artista em 2019, foi um dos escolhidos pela Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp, para representar o Brasil na mostra paralela do Festival de Avignon, que ocorre agora na França.

Em sua obra, Souza pensa o lugar do corpo negro na dança contemporânea e critica o racismo, entranhado nas estruturas sociais do Brasil ou da Europa. "Muitas vezes, temos um cenário na dança em que os bailarinos negros são mais olhados pela imagem da negritude que passam do que pela arte que executam", diz. "Quero questionar a ideia de que o corpo negro está sempre ponto para o movimento, essa associação histórica do corpo negro com a fisicalidade."

De fato, não se trata de uma coreografia expansiva, tanto que o artista promove um diálogo com as artes plásticas e com a performance, porque apenas a dança, segundo ele, seria insuficiente para dar conta do tema abordado. Em "Eles Fazem Dança Contemporânea", as ideias se sobrepõem à ação, numa obra de natureza cerebral e com apelo à interioridade.

Na maior parte do tempo, Souza tem o gesto contido, rastejando no solo para interagir com pilhas de cabelos crespos artificiais. À medida que o ritmo das frases se intensifica, as interações com o objeto cênico aumentam. Manipulando os cabelos, o artista desenha formas geométricas no solo do cubo branco, que se estruturam e se desestruturam a toda hora.

A progressão coreográfica se sente também na vestimenta. Souza começa o espetáculo vestindo um moletom, mas, pouco a pouco, retira as peças, encarando a própria nudez. "Os cabelos crespos são uma experiência simbólica da diáspora, uma parte do corpo que muitas vezes tentam controlar ou polir", diz.

Nos últimos anos, Souza tem criado sobretudo solos, como "Sismos e Volts", de 2018, imaginado a partir de tremores, giros e desequilíbrios. "Eles Fazem Dança Contemporânea" é, porém, o trabalho que tem mais executado. "Acho que é um trabalho que fala não apenas com o Brasil", afirma. "É um espetáculo que desafia o que se convencionou a entender como dança e quero mostrar que também há lugar para esse tipo de coreografia no Brasil."


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