Nimrod é saqueada mesmo após ser libertada do Estado Islâmico
NIMROD, Iraque - Três mil anos atrás, Nimrod, no Norte do atual Iraque, era a capital do poderoso Império Assírio, que se espalhava por quase todo o Oriente Médio. Hoje, vítima da ferocidade com a qual o Estado Islâmico (EI) tenta apagar a História, está reduzida a escombros. Seus palácios e templos, que refletiam brilhantes deuses e reis, foram explodidos. As estátuas de touros alados que guardavam a entrada da cidade estão em ruínas e seu enorme zigurate foi derrubado por retroescavadeiras.
O fanatismo dos extremistas devastou um dos sítios arqueológicos mais importantes da região, mas, mesmo mais de um mês depois de os jihadistas terem sido expulsos, a antiga capital assíria permanece desprotegida e vulnerável à ação de saqueadores, que se aproveitam do fato de o governo e as Forças Armadas ainda estarem mergulhados na guerra contra o EI nos arredores de Mossul.
— Quando soube da situação de Nimrod, meu coração sofreu — diz Hiba Hazim Hamad, professora de Arqueologia de Mossul, que costumava levar seus alunos à antiga cidade.
Em três das quatro visitas realizadas por uma equipe da agência Associated Press, seus integrantes perambularam livremente por Nimrod antes de encontrarem qualquer pessoa. Ninguém tem a função de tomar conta do sítio arqueológico, e muito menos de catalogar os fragmentos espalhados pela cidade. Ruínas de monumentos vistos nas primeiras visitas haviam desaparecido quando a equipe retornou.
Talvez o único vigia que permaneça na cidade seja a arqueóloga iraquiana Layla Salih. Ela visitou Nimrod diversas vezes, documentando a destruição de artefatos históricos e insistindo para que as milícias zelassem pela proteção do sítio arqueológico. Salih mantém o otimismo, afirmando que boa parte do sítio é recuperável.
— A boa notícia é que os escombros ainda estão no local.
No entanto, a representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no Iraque, Louise Haxthausen, classificou a destruição de Nimrod como “absolutamente devastadora”.
— O mais importante agora é garantir alguma proteção básica à cidade — afirmou.
No entanto, nenhum dos grupos armados posicionados nos arredores de Nimrod — incluindo diversas milícias e o Exército iraquiano — fez da proteção à cidade uma de suas prioridades.
Durante uma visita da Unesco, Salih notou que alguns dos tijolos antigos das ruínas tinham sido diligentemente empilhados como se estivessem à espera de serem levados — talvez, ela suspeita, para consertar casas danificadas na luta. Telhas de pedra na entrada do palácio desapareceram de onde foram vistas da última vez.
Dois moradores locais foram presos com uma tabuleta de mármore e um selo de pedra de Nimrod, presumivelmente para vender. Mas não se sabe onde estão os objetos apreendidos: a polícia insiste que estão num laboratório em Irbil; o laboratório alega nada saber deles. O Ministério das Antiguidades em Bagdá diz que estão num cofre com o governo da província de Nínive; um funcionário de lá afirma que estão com a polícia aguardando trânsito para Bagdá. Tal confusão torna fácil o roubo.
Salih está buscando ajuda internacional para pagar alguém que guarde o sítio arqueológico. Mas ela reconhece que a tarefa terá de ir para uma das milícias, sem garantias de uma proteção integral.
Nimrod ganhou fama também pelo trabalho da escritora britânica de mistério Agatha Christie. Ela foi casada com o arqueólogo Max Mallowan, que realizou escavações na cidade, onde ela passava vários meses por ano acompanhando-o.
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