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Maria Homem: 'Precisamos melhorar nossa imagem no espelho, parar de pagar pau para o outro'

Estadão

Eliane Dias, Maria Homem e Ângela São José participaram de um painel neste sábado, 16, para debater criatividade, cultura e as possibilidades de um novo Brasil com as potências periféricas. A conversa é parte dos Side Events do São Paulo Innovation Week (SPIW), festival de inovação e empreendedorismo promovido pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, e ocorre no Centro Educacional Unificado (CEU) Heliópolis.

Em parceria com a Prefeitura de São Paulo, os encontros do SPIW ocorrem também dentro dos CEUs, equipamentos públicos que promovem acesso à cultura, educação e convivência comunitária. A programação ocorre neste fim de semana, dias 16 e 17, em quatro unidades.

Psicanalista e escritora, Maria Homem recorda que o CEU é uma iniciativa que abre espaço para que as subjetividades aflorem. "Tem que ser bom, bonito e agradável, e ter o tripé mínimo: eu, o outro e o mundo, com espaços de interação e lugar para você olhar o outro", pontua. "Isso é cultura na matriz, você olhar o outro. Crescer é difícil, sobreviver, ganhar dinheiro, envelhecer. Não tem parte fácil na vida. Música, cinema, arte, a palavra, é você não dar tiro no outro, não sacanear o outro. Tem que ter esses espaços para tornar o mundo mais habitável. É como nosso corpo. Não dá para o sangue estar só em nosso coração, precisa chegar às extremidades."

Eliane Dias, advogada, empresária e CEO da produtora musical Boogie Naipe, à frente da carreira dos Racionais MCs, acredita que ainda há caminhos a serem percorridos para que os debates culturais atinjam as comunidades periféricas. "Acredito que a juventude precisa muito sentir vontade de lutar por muitas coisas, nem que seja por ela mesma. A juventude está muito conformada, e há muita coisa a ser feita."

Líder comunitária e coordenadora da biblioteca municipal de Heliópolis e da União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região 9 (UNAS), Ângela São José reforça que é desafiador, mas possível, integrar as comunidades aos projetos. "Às vezes, as pessoas acham que não é para elas, que elas não servem para isso. Em muitos momentos, achamos que não somos merecedores disso, mas temos juventudes que fazem parte desse espaço. Acho que não é fácil, é um trabalho de formiguinha. Mas, como educadora, acho que isso é possível."

A música como ponte

Eliane conta como a música estabelece uma frente para que o Brasil comece a escutar as periferias, e conta como a carreira dos Racionais MCs é importante para que jovens de comunidades consigam se enxergar. "O Racionais entrou para a história do Brasil mudando o jeito de pensar, passando autoestima para um povo. Existe um povo negro antes e depois de conhecer o Racionais", pontua, declarando que ela mesma foi transformada pela trajetória do grupo, cuja carreira hoje gerencia.

"Também fui uma mulher que acreditava que não poderia dizer 'não' para muita coisa, e que perderia oportunidades se o fizesse. Acompanhando o Racionais, antes de trabalhar com eles, observei que eles falavam 'não' com muita naturalidade e não se vendem. O meu povo aprendeu isso. Se não for uma coisa boa para o meu povo, o meu povo não faz. A arte na periferia é mais rica, sincera, tem mais improviso. É muito mais interessante ouvir o que está sendo dito na periferia do que uma coisa que seja blasé, meio pálida."

Ângela completa o raciocínio, explicando como a literatura e o acesso da comunidade à leitura ajudam a fomentar jovens mais interessados na inovação. Ela conta que a biblioteca municipal de Heliópolis nasceu em 2005 e, hoje, possui acervo de 13 mil exemplares catalogados e atende a um público de 10 mil pessoas da região. "Muitas crianças se apropriaram de imediato por causa das atividades, e outros adultos e adolescentes vieram e estão vindo. Hoje, conseguimos conectar o público da melhor idade. A forma que encontramos, nossa equipe que gere a biblioteca, é através das linguagens artísticas. Usamos da musicalização, contação de histórias, teatro, para falar sobre o livro, aproximando temas que são importantes na comunidade, como intolerância religiosa", exemplifica.

A ocupação de espaços

Questionada sobre o que acontece com uma sociedade quando ela não consegue se ver representada, Maria Homem aponta que é importante que a cultura ocupe espaços e observa a penetração das igrejas evangélicas. "Falamos muito no Brasil sobre a penetração das igrejas, sobretudo as evangélicas, e como isso mudou a política, o Brasil e o estilo de voto. Mas vemos nas estatísticas, a mulher preta, pobre e periférica é a maioria que está no universo evangélico. E ela é a cara do Brasil. Sempre pergunto: Como podemos fazer esse espaço de socialização que não seja só por meio da transcendência com Jesus Cristo? Porque, quando o que nos une é Jesus, cada um interpreta o que é bem e o mal de acordo com o que está na cabeça, e com isso pode-se manipular as massas. O risco é ter um aparato de dominação. Não é a democracia, não é a igualdade, não é necessariamente a luta."

Por isso, segundo a psicanalista, há a necessidade de exercer a sociedade e o senso de comunidade dentro de outros elos comuns. "Quais as igrejas do futuro para um Brasil, de fato, cidadão, inclusivo, cada vez mais com liberdade, direito e menos roubalheira?", provoca. "Tem um monte de pastor ladrão. Estamos sendo manipulados e enganados, mas queremos encontrar pessoas e queremos luta. Para mim, a UNAS é uma das caras dessa nova igreja do Brasil. O livro para mim é sagrado, todos, a biblioteca, o conjunto. Um Brasil sub-representado é um Brasil traumatizado. É muito importante você se ver no espelho. Se você não se vê, não se autoriza. E aí vira um complexo de vira-lata, sintoma grave do Brasil. Precisamos melhorar nossa imagem no espelho, parar de pagar pau para o outro, sair da militarização e dos delírios que fundam o Brasil."

Os desafios para a mudança

Durante o debate, as palestrantes foram questionadas sobre quais são os grandes desafios para que as potências periféricas sejam vistas como fatos consolidados, e não histórias de exceção. Para Eliane, um dos desafios está no conformismo que ela enxerga em novas gerações.

"A base é para todo mundo, mas o topo, infelizmente, é para alguns. Não vejo como o reconhecimento ser fácil. Só sai da base e chega a algum lugar quem sentir que aquilo que possui é pouco. Se as pessoas ficarem conformadas, elas se enquadram dentro do que já têm. Mas tudo isso dá trabalho e requer um desconforto. Estou intrigada com a juventude de hoje, que fala que não vai trabalhar se não for para estar feliz. Para mim, estar feliz é estar na praia, não é ir na academia, não é trabalhar. Eu faço coisas que me deixam feliz mas, para isso, eu preciso ter autonomia para decidir", compartilha. "Tem uma juventude que fala que só vai trabalhar se for fazer exatamente o que quer. Isso cria um conformismo que faz a pessoa não sair dali. Precisamos nos sentir desconfortáveis com algumas coisas para a gente mudar."

Ângela concorda, e exemplifica, citando a importância de iniciativas públicas de incentivo. "Eu sempre quis estudar e para mim estava longe, porque achei que seria empregada doméstica, como minha mãe, minha avó. Eu tinha ânsia de estudar, mas em determinado momento precisei parar de estudar para trabalhar. Fui fazer faculdade aos 40 anos. Com muito sacrifício e ajuda, consegui. Então, os movimentos sociais são muito importantes nesses territórios. Os movimentos sociais fizeram nós, pretos e periféricos, enxergamos que podemos estar lá. Quando eu melhoro, minha filha, minhas irmãs, também melhoram. A educação não pode ser negada a ninguém. E, no Brasil, precisamos de pessoas que pegam em nossas mãos e dizem que somos capazes."

Por fim, Maria Homem deixa um recado para as juventudes. "Autorize-se. Se autorize a sonhar. Você tem o direito ao sonho. Não acredite se alguém disser que você não tem o direito de ser o que pode ser. Não vai ser pela bet, pela bíblia, pelo delírio e pela fantasia. Vai ser pela educação, pela rede de pessoas e por muito trabalho. E isso é muito difícil."

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