Queniano Kipchoge confirma favoritismo e conquista bi olímpico na maratona
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O queniano e atual recordista mundial nos 42,195 km, Eliud Kipchoge, confirmou seu favoritismo e se tornou bicampeão olímpico ao levar a medalha de ouro na maratona das Olimpíadas de Tóquio, realizada em Sapporo na manhã deste domingo (8) no Japão, noite de sábado (7) no Brasil.
Com uma disputa emocionante pelo segundo lugar, o holandês Abdi Nageeye e o belga Bashir Abdi conseguiram desbancar o queniano Lawrance Cherono e conquistaram as medalha de prata e de bronze, com tempos de 2h09min58seg e 2h10min.
A vitória de Kipchoge já era esperada, e o queniano mostrou a que veio a partir do quilômetro 30, quando despontou do pelotão líder e conquistou larga vantagem. A disputa, então, ficou pelo segundo e terceiro lugares.
Cherono vinha à frente do pelotão de perseguição --como é chamado o grupo de atletas que vem depois dos líderes--, mas na reta final Nageeye disparou e chamou Abdi para o acompanhar, tirando o queniano do pódio.
Apesar de ter apertado o ritmo no fim, Kipchoge terminou a prova com 2h08min38seg e não conseguiu bater o recorde olímpico (2h06min32seg). Ainda assim, ele entra para história como o terceiro a atleta se tornar bicampeão em Jogos, ao lado do etíope Abebe Bikila (1960 e 1964) e do corredor da Alemanha Oriental Waldemar Cierpinski (1976 e 1980).
As condições para a prova não foram tão duras quanto a das mulheres, já que o céu ficou nublado durante quase todo percurso. O clima na largada, de 26º C e 79% de umidade não variou muito ao longo da competição.
Mesmo com essas circunstâncias, Kipchoge cruzou a linha de chegada cumprimentando a torcida e já sorria a cinco quilômetros do fim. O tempo abafado, por outro lado, castigou muitos atletas, entre eles os dois brasileiros estreantes, Daniel Chaves e Daniel Nascimento.
Chaves deixou a competição na altura do quilômetro 19, mas Nascimento vinha bem até o quilômetro 25, acompanhando inclusive o pelotão líder ao lado de Kipchoge --com quem chegou a trocar cumprimentos em determinado momento.
Foi justamente depois da parcial dos 25 km que Nascimento acabou caindo. Retornou para a prova, mas desistiu alguns quilômetros depois. Segundo a transmissão, sua situação não era grave, e ele estava sendo atendido em um posto de apoio. O terceiro brasileiro que disputava, Paulo Roberto Paula, concluiu a prova em 2h26min10seg.
Além de Nascimento e Chaves, outros 26 atletas desistiram, entre eles dois etíopes que vinham para brigar pela medalha. Shura Kitata, que derrotou Kip na Maratona de Londres em 2020, deixou a prova antes dos dez quilômetros. Já Sisay Lemma saiu pouco depois da metade do percurso.
Com boa parte dos seus rivais fora, Kip, como o queniano é conhecido, teve o caminho aberto para selar a vitória em sua 13ª maratona --ele perdeu apenas duas provas na carreira, uma delas foi justamente na capital britânica, no ano passado, para Kitata.
O queniano colocou seu nome na história do esporte após bater o recorde mundial na Maratona de Berlim, em 2018, ao completar o percurso em 2h01min39seg, até hoje sua melhor marca. Foi ainda o primeiro a correr a distância da prova em menos de 2 horas, em um evento não oficial, em 2019.
Caçula de cinco filhos, seus pais são pequenos agricultores em Kapsisiywa, a 315 km da capital do Quênia, Nairóbi. Pouco se sabe do pequeno vilarejo onde a estrela da corrida nasceu, em 5 de novembro de 1984, estudou em uma escola para meninos e até hoje treina nas proximidades, no Global Sports Camp, em Kaptagat, a 67 km dali.
Foi na escola que começou a correr, casualmente. O esporte era tanto um hobby que Kip nunca alcançou o nível das competições de seu distrito. Seu cotidiano era dividido entre o hobby, as aulas --o queniano gostava de estudar-- e a rotina da pequena fazenda, onde cuidava dos animais e ia buscar água no rio próximo, junto a sua mãe.
Após se formar, Kip treinava por conta própria e começou, em 2001, a participar de provas locais de cross-country (em que o terreno varia de terra a grama, montanhoso a plano, e as distâncias ficam entre 4 km e 12 km).
Numa série de competições, ficou em segundo lugar no geral e chamou a atenção do holandês Jos Hermens, seu representante até hoje. Sua carreira começou a decolar em 2003, quando um jovem franzino de 18 anos do interior queniano venceu o Mundial de Cross Country em Lausanne, na Suíça.
Ainda naquele ano, o mundo viu o atleta de 1,67 m de altura vencer os 5.000 metros do Mundial de Atletismo de Paris. Um ano mais tarde, na Olimpíada de Atenas, conquistou a medalha de bronze na modalidade.
Durante os nove anos seguintes, Kip alternou anos em que ia bem nas competições com outros em que sua performance era aquém do esperado. O ponto mais baixo de sua carreira como fundista e meio-fundista foi em 2012, quando ficou de fora das Olimpíadas de Londres nos 5.000 metros e 10.000 metros.
Foi nesse mesmo ano, porém, que o queniano fez uma curva em direção à maratona. Em setembro, fez seus primeiros 21,097 km na prova em Lille, na França. Terminou em terceiro lugar. Correu mais algumas provas na distância ainda em 2012 e em 2013 --ano que estreou na modalidade que alçaria seu nome entre os principais atletas do mundo.
Em abril daquele ano, venceu a Maratona de Hamburgo, na Alemanha. Em setembro, perseguiu Wilson Kipsang (que bateu recorde mundial na ocasião) na Maratona de Berlim, mas ficou em segundo lugar. Foi a primeira de suas duas derrotas em 15 provas disputadas até hoje.
A sequência de bons resultados o levou, em 2017, ao desafio Breaking2, da Nike, que o patrocina até hoje. A meta era atingir a ambiciosa marca de completar a distância da maratona em menos de duas horas, mas por 26 segundos ele não conseguiu quebrar a barreira. O feito foi conquistado, por fim, dois anos depois.
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