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'Sempre Garotas' retrata rivalidade entre mãe e filha com sensibilidade

Por Folha de São Paulo

04/05/2025 9h45 — em
Arte e Cultura



(FOLHAPRESS) - O cinema indiano tem mostrado perspicácia e bom senso no uso das estratégias de sucesso em festivais internacionais, sem perder uma cor local e uma certa poesia do inusitado, que foge às fórmulas e à uniformização do cinema contemporâneo.

Tomemos como exemplo este recente e premiado "Sempre Garotas". Mira, interpretada pela ótima Preeti Panigrahi, vencedora de um prêmio de atuação em Sundance, é uma garota exemplar nos estudos, mas na fase dos atritos com a mãe e do conhecimento de sua própria sexualidade. Com 16 anos de idade, os mistérios do corpo se oferecem à sua vívida curiosidade.

Ela estuda num internato de regras bem rigorosas, na região do norte da Índia, próxima à cordilheira do Himalaia. Nesse local em que as saias das garotas devem ficar no máximo à altura dos joelhos e as meias levantadas de modo que pouco de suas pernas apareça, ela conhece um rapaz, Sri, vivido pelo não tão bom Kesav Binoy Kiron. Eles desenvolvem um romance secreto e atribulado num ambiente de repressão sexual.

Mira é nomeada monitora, graças às altas notas que consegue nas provas. Sua função é servir de ponte entre a direção e os professores e os alunos, o que por vezes lhe dá problemas, como na ocasião em que pede a suspensão de três rapazes que tiravam fotos com a câmera no chão enquanto as garotas subiam as escadas.

No romance com Sri, seu maior obstáculo parece ser a mãe, Anila, vivida por Kani Kusruti, atriz que protagoniza "Tudo que Imaginamos como Luz". Anila procura vigiar a filha com mãos de ferro, mesmo tendo ela mesma, no passado, dado suas fugidinhas, como ela mesma sugere.

Estamos no terreno do "coming of age", ou seja, a época em que as pessoas se tornam sexuadas, dispostas, por vezes, a quebrar regras, se elas existirem. Período de amadurecimento, mas também de inseguranças e sofrimento.

Nesse terreno, tudo depende de nossa empatia com a protagonista, que aqui é facilitada pela excelente interpretação da jovem atriz. Seu olhar titubeante e curioso ao mesmo tempo é a chave para a entendermos e a aceitarmos em suas dúvidas e até nos movimentos errados.

Talvez o filme pegue pesado na caracterização de Anila. Mesmo se não aderimos ao ponto de vista de Mira, sua mãe parece por um bom tempo uma vilã digna das antigas novelas da Janete Clair. Um cerco assim, complementar ao do colégio, é propício para que se chegue ao que a mãe parecia querer evitar.

Mas o que constrói a aparente vilania dessa mãe é sua hipocrisia. Cheia de restrições com a pobre adolescente, ela mesma se insinua ao namorado da filha de um modo competitivo. Ela parece não suportar que a filha tenha a felicidade que ela mesmo não teve, ou não tenha mais.

Sri, obviamente, tem sua parcela de culpa. Ele parece jogar com mãe e filha de um modo que deixa Mira sempre à mercê dos acontecimentos que a cercam, na escola ou em sua própria casa. A adolescência também é uma fase mais difícil para as mulheres.

Nesse mundo de opressores e oprimidos, é de sua mãe que dependerá, afinal, a integridade física de Mira. Enquanto o filme está no impasse da violência psicológica, quase se torna mais do mesmo.

Nos momentos em que nos coloca em dúvida sobre as reais intenções de Sri e mesmo da mãe, o filme cresce, porque nossa dúvida é a dúvida de Mira.

É o primeiro longa de Shuchi Talati, jovem diretora com uma série de curtas no currículo, entre eles "Mae & Ash", de 2012, e o elogiado "A Period Piece", de 2020. Como produtora, sua experiência é maior, incluindo séries de TV.

Uma de suas principais qualidades nesta estreia animadora em longas é a delicadeza no tom, que transforma cada sequência num deleite de inquietação e poesia, driblando os clichês com a habilidade de uma veterana.

Longe de ser um filme totalmente bem resolvido, como "Tudo que Imaginamos como Luz", de Payal Kapadia, o indiano celebrado do ano passado, "Sempre Garotas", em suas irregularidades, revela uma força incomum, que ultrapassa as artimanhas do roteiro e se organiza -meio cambaleante, é verdade- numa encenação sensível, orquestrada por Talati e executada por sua jovem atriz.

SEMPRE GAROTAS

Avaliação Muito bom

Onde Em cartaz nos cinemas

Classificação 14 anos

Elenco Com Preeti Panigrahi, Kani Kusruti, Kesav Binoy Kiron

Produção Índia, França, 2024

Direção Shuchi Talati


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