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Jesse Armstrong exagera na idiotice até alcançar a sátira em filme

Por Folha de São Paulo

29/05/2025 23h15 — em
Arte e Cultura



FOLHAPRESS - Quatro bilionários sem escrúpulos -Randall, Jeff, Venis e Souper, interpretados, respectivamente, por Steve Carell, Ramy Youssef, Cory Michael Smith e Jason Schwartzman- se encontram num casarão na montanha para se divertir com suas estratégias de ganhar milhões com crises e destruições.

Jeff acaba de lançar uma nova inteligência artificial. Venis aproveita essa IA para espalhar fake news em sua rede social, Traam. Em torno deles, Randall está com câncer terminal e espera que a tecnologia o salve da morte, e Souper se preocupa porque não consegue chegar a um bilhão para investir num app de saúde mental que criou.

É em torno desses quatro playboys que se move a trama de "Mountainhead", primeiro longa dirigido e roteirizado por Jesse Armstrong, criador da série "Succession" -ambos produzidos pela HBO.

Já no começo do encontro, fica claro que o mais cínico, Venis, ajudado pelo mais desesperado, Randall, e pelo ensaboado Souper, apelidado de Souper Man, será questionado por Jeff, o único que tem algum traço de civilidade.

Fica claro também que os quatro são, ou eram, grandes amigos, mas entre Venis e Jeff rolou algum conflito profissional --em dado momento, Venis fala que Jeff devia lhe devolver sua equipe.

Para avançar de nível em sua empresa, ou seja, ganhar ainda mais dinheiro, Venis deseja comprar a IA de Jeff e espalhar tantas fake news que o mundo se transformaria por completo. Sua desculpa é que quanto mais comuns elas forem, menos as pessoas as levarão a sério.

Quatro idiotas, em diferentes níveis de idiotice, mas com um tipo de esperteza direcionado para a destruição e o caos. Citam Kant e Nietzsche de orelhada, mas, na verdade, desprezam a cultura e o pensamento.

São seres desprezíveis, representantes da atual extrema direita americana, que Armstrong relaciona com o novo governo de Donald Trump, continuando na ligação de poder e dinheiro com a política que a série expõe bem.

Talvez o grande problema de "Mountainhead" seja a dificuldade de se acompanhar tanta idiotice na maior parte do filme. Vemos as cantorias dos amigos, as piadas sem graça, as maldades atiradas ao léu, os planos de dominação de países em crise econômica que eles mesmos ajudam a reforçar. Tudo bem que um encontro entre homens faz com que a quinta série sobrevivente neles se torne mais evidente. Mas é demais.

A força de "Succession" é que há uma dimensão humana perceptível em todos os seus personagens neoliberais, mesmo em suas idiotices. Um quer devorar o outro, mas até certo ponto eles se mantêm num nível de decência que os deixa mais interessantes, ao menos como personagens, como se o atual mundo capitalista fosse dividido entre os mais e os menos cruéis.

É a diferença, segundo nos mostra Armstrong, entre os neoliberais democratas, mais numerosos na série, e os neoliberais republicanos do longa, embora na série fique bem evidente que o patriarca se aproxima de quem estiver no poder.

Há uma espécie de humor que ajuda nessa humanização de personagens patéticos, dos quais o mais cínico é o de Kieran Culkin, um dos irmãos que lutam pelo poder na empresa do pai moribundo. Um exemplo está na "gag" recorrente da dificuldade de se abrir ou mesmo perceber portas de vidro.

Em "Mountainhead", não temos esse tipo de piada, mas uma enormidade de cenas que se assemelham a um desses reality shows medonhos da MTV. A direção de Armstrong contribui para isso, qual um Adam McKay de segunda linha. E os atores, por melhores que sejam, parecem exagerados em seus papéis, principalmente Carell.

McKay é produtor executivo e diretor do primeiro episódio de "Succession", e foi um dos poucos a conseguir realizar um bom filme com essa estética da sujeira que ajudou a estabelecer em Hollywood. Mas não nasce um "Vice" a cada ano.

Há ainda outro ajuste. Numa série, com personagens de desenvolvimento mais nuançado e diálogos levando a narrativa de modo encadeado, uma direção pouco caprichada faz menos estragos do que num longa.

A não ser, claro, para os que não consideram o cinema uma arte, em que um conteúdo leva a uma forma fílmica, que nos informa do tom e do ponto de vista de quem estiver por trás das escolhas, seja o diretor, um ator/atriz ou um produtor.

Para esses, basta uma boa história e bons intérpretes para que um bom filme surja como que por milagre, como numa série. Em "Mountainhead", há sinais de uma boa história e apenas momentos de boas atuações. Portanto, não há milagre sob ponto de vista algum.

Somente na meia hora final, quando se assume uma comédia como "Os Três Patetas", conseguimos ver alguma graça. A questão é se precisávamos ter mais de uma hora desse encontro para, aí sim, alcançarmos essa graça.

Sim, Armstrong pensou no registro cômico desde o início. A questão é que o filme jamais atinge essa comicidade, que não é alcançada simplesmente com idiotices dos personagens. Parece esses filmes de horror que evitam a maior parte dos elementos que sustentam o gênero. Como temos o pós-horror, talvez se possa nomear a "pós-comédia".

"Mountainhead" precisa primeiro atenuar seu teor cômico, para deixar evidente a crítica, e só depois se assumir como uma sátira implacável aos bilionários predadores de hoje? Faltou coragem, talvez, para explorar desde o início um dos gêneros mais afeitos à crítica -basta ver o que Jerry Lewis e Blake Edwards, para nomearmos apenas dois, fizeram nessa seara.

Mountainhead

Quando Estreia nesta sex. (30) no HBO Max

Elenco Steve Carell, Ramy Youssef, Cory Michael Smith

Produção Estados Unidos, 2025

Direção Jesse Armstrong

Avaliação Regular


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