RIO - Tiroteios, movimentação constante de homens armados por vielas e três mortes. Na madrugada seguinte à prisão de Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, que era o bandido mais procurado do estado, o temor de uma nova guerra do tráfico na Rocinha aumentou. Ao mesmo tempo, a polícia investiga que quadrilhas vêm se organizando em outras comunidades para disputar as bocas de fumo da favela, que movimentam R$ 10 milhões por mês, o que reforça a sensação de insegurança entre moradores.
— Dizem que 500 PMs estão aqui, mesmo assim, três pessoas morreram após o Rogério 157 ter sido capturado, e a venda de drogas não parou. Quem vive na Rocinha sabe o que pode vir por aí. Os bandidos que saíram querem voltar, e os que ficaram estão se preparando para novos confrontos — disse um morador.
Rogério 157 foi preso na manhã de quarta-feira dentro de uma casa da Favela do Arará, em Benfica. O traficante vinha sendo caçado pela polícia desde setembro, quando explodiu uma guerra do tráfico na Rocinha: ele rompeu com seu ex-chefe, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, que cumpre pena num presídio federal em Porto Velho (RO), e mudou de quadrilha. Hoje, é o seu bando, ligado ao Comando Vermelho (CV), que controla as bocas de fumo da Rocinha. No entanto, a facção Amigos dos Amigos (ADA) quer retomá-las.
De acordo com investigadores, quem tenta organizar uma invasão à Rocinha é um homem conhecido como Modelo, que seria genro de Nem. Informantes da polícia e grampos telefônicos revelaram que, na noite de quarta-feira, após a captura de Rogério 157, criminosos que foram expulsos da favela se reuniram no Complexo do São Carlos, no Estácio, para planejar um ataque. Também participaram do encontro bandidos da Vila dos Pinheiros (no Complexo da Maré) e de Acari — comunidades dominadas pelo Terceiro Comando Puro (TCP), aliado da ADA.
Para moradores da Rocinha, só não houve uma invasão na madrugada de quinta-feira, horas após a reunião de bandidos no Complexo do São Carlos, porque o Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM estava de prontidão na comunidade. Apesar disso, três pessoas foram mortas durante confrontos. Duas vítimas, segundo a polícia, tinham envolvimento com o tráfico. A terceira era o mototaxista Vítor Hugo Fernandes Mesquita, de 26 anos. Autoridades não informaram as circunstâncias em que ele foi baleado.
Enquanto ADA e TCP planejavam um ataque, o CV reforçava suas bases não só na Rocinha, mas também no morro vizinho, o Vidigal. Moradores relataram que viram uma grande movimentação de bandidos nas bocas de fumo e na mata que liga as duas comunidades. Na quarta-feira, durante um debate no seminário “Reage, Rio!”, promovido pelo GLOBO e pelo “Extra” no Museu do Amanhã, o secretário estadual de Segurança, Roberto Sá, reconheceu que “a guerra na Rocinha ainda é uma realidade”. Ele disse que pediu aos setores de inteligência das polícias Civil e Militar um monitoramento das atividades de bandidos ligados a Rogério 157 e a Nem.
Apesar do clima de medo, lojas e unidades de saúde e ensino da Rocinha abriram as portas ontem. E agências de turismo mostraram que a morte da espanhola Maria Esperanza Jimenez, em 23 de outubro, não serviu de lição: guias levaram um grupo de estrangeiros à favela, contrariando recomendações de autoridades do país e do exterior para evitá-la.
— Contratamos um serviço turístico para conhecer a favela. Disseram que o local é seguro, mas caminhamos por 15 metros dentro da Rocinha e um policial falou conosco que não deveríamos seguir adiante — lamentou um português.
Maria Esperanza foi morta com um tiro no pescoço dentro de um carro, no qual também estavam outros dois espanhóis e dois prestadores de serviços de uma agência de turismo. O disparo foi feito por um PM que reforçava o patrulhamento da comunidade por conta da guerra do tráfico. Ele alegou que atirou porque o motorista do veículo não parou num bloqueio, mas testemunhas negaram que isso tenha acontecido.
Nesta quinta-feira, o delegado Gabriel Ferrando, titular da 12ª DP (Copacabana), um dos responsáveis pela captura de Rogério 157, prestou depoimento na Corregedoria da Polícia Civil. O órgão está apurando a conduta dele e de outros policiais que tiraram selfies com o traficantes após sua prisão. Também foram ouvidas três agentes que posaram para fotografias com o bandido. Uma delas, Miriam Glória Carvalho dos Santos, afirmou ter ouvido de Rogério 157 “você é famosinha no Instagram”.
A agente alegou ainda que sorriu na foto porque sentiu orgulho de ter participado da prisão de Rogério 157. Miriam também afirmou que Ferrando autorizou policiais a fazerem selfies com o traficante. No entanto, ele negou essa informação. O delegado alegou que registrou uma imagem com o bandido para enviá-la a José Pedro Costa, diretor do Departamento Geral de Polícia da Capital (DGPC), com o objetivo de mostrar que tinha encontrado o criminoso. José Pedro foi ouvido na corregedoria e confirmou essa versão.
Até esta quinta-feira, Rogério 157 estava sozinho numa cela do presídio de segurança máxima Bangu 1, aguardando transferência para uma unidade federal fora do estado.



