Neste 2023 não se fala mais em Cidade Flutuante de Manaus. Mas a redução do nome para apenas casas flutuantes não altera a essência da situação vivida nos anos 1950. Naquele tempo, a construção de casas sobre as águas começava na frente de Manaus e continuava nos igarapés da orla até o litoral dos Educandos. Agora, as casas flutuantes estão localizadas no igarapé do Tarumã-Açu, zona oeste da capital. E a Justiça já determinou a retirada de todos os flutuantes (assim chamados pelos amazonenses), já determinou prazo, a prefeitura avisou os proprietários. Defensores do meio ambiente defendem a retirada dos flutuantes (cerca de 900) onde funcionam bares, restaurantes, áreas para eventos e festas, segundo o noticiário.
Sobre a cidade flutuante “original”, o historiador Otoni Mesquita diz que foi “demolida” em 1966. Numa entrevista ao G1 AM (24/10/2019), que tratou sobre “infindáveis casas de palafitas que se espalharam pelas margens da capital”, Otoni Mesquita falou em “uma espécie de bairro flutuante”. “Comércios, restaurantes, consultórios médicos e dentistas, oficinas mecânicas... Tudo tinha ali, na cidade flutuante”, lê-se na reportagem. O site idd.org.br (Instituto Durango Duarte), também traz informações sobre o assunto, inclusive sobre o tamanho e o tipo de material de construção (citando fontes, a exemplo da Revista da CODEAMA -Estudos Específicos). Eis um trecho:
“Havia tudo o que uma cidade necessita para sua existência: farmácia, boate, roupas, sapatos, comércio de tudo o que o rio lhe dava. Era comum vê-se a salga de mantas de pirarucu, ensaque de castanhas, venda de quinquilharias, marcação de peles. A cidade desempenhava a função de entreposto de grandes casas exportadoras de couros de jacaré, borracha, sorva, balata, pirarucu, peles de onça, cobra, ouro e contrabando. Abrigava, ainda, bandidos e malandros e tinha até estradas flutuantes com cobranças de pedágio por exploradores e sabidos”.
Sobre esse episódio que poderia ser chamado de “Cidade Flutuante parte 2”, já existem muitas informações. Sobretudo informações oficiais: decisão judicial, prazo para retirada de flutuantes. Mas, dentro desses flutuantes, quantas pessoas vivem? Para onde essas casas sobre as águas levarão seus habitantes? Pessoas de todas as idades. E adultos que, possivelmente, deixarão de ter renda.
Como é a vida dessas pessoas? Haverá entre eles, a exemplo do passado, “bandidos e malandros” ou “exploradores e sabidos”? Se existem 900 flutuantes (às vezes falam em mil flutuantes), qual o número de moradores? Obviamente, essas são poucas das muitas perguntas que poderiam ser respondidas em reportagens.
Sugestão da coluna ao Portal do Holanda: colocar em pauta esse assunto das casas flutuante do Tarumã-Açu. Afinal, é uma questão local e complexa, que pode atingir, direta ou indiretamente, centenas de amazonenses ou pessoas residentes na capital do estado. Estão prejudicando o meio ambiente? Certamente. E por que as autoridades não perceberam a tragédia logo na chegada dos primeiros flutuantes? Também são perguntas que poderiam ser respondidas. Se existe consequência, é porque houve uma causa.
Portal do Holanda: abrir um espaço para saber um pouco da história dessas pessoas que serão rebocadas sabe-se lá para onde, será um registro para a História do Amazonas.
Que tal uma visita às casas sobre águas?

