“A precipitação e a falta de rigor são vírus que ameaçam a qualidade informativa. A manchete de impacto, oposta ao fato ou fora do contexto na matéria, transmite ao leitor o desconforto de um logro. Repórteres carentes de informação especializada e de documentação apropriada acabam sendo instrumentalizados pela fonte. Sobra declaração leviana, mas falta apuração rigorosa. A incompetência impune foge dos bancos de dados. Na falta da pergunta inteligente, a ditadura das aspas ocupa o lugar da informação”.
Exatamente com essas palavras o colunista Flávio Lauria, do Portal do Holanda, iniciou o texto com o título “Manchete que atrai leitores”. No dia 3 de julho deste ano. Lauria discorre sobre outros assuntos, especialmente políticos (vale a pena ler), mas aqui ficaremos com a primeira parte. Que ainda tem mais e toca até num ponto nevrálgico, bem conhecido de quem já esteve ou está numa redação: o fator tempo e as pautas.
“O jornalismo de registro, burocrático e insosso, é o resultado acabado de uma perversa patologia: o despreparo de repórteres e a obsessão de editores com o fechamento. Quando editores não formam os seus repórteres; quando a qualidade é expulsa pela ditadura do deadline; quando as pautas não nascem da vida real, mas da cabeça de pauteiros anestesiados pelo clima rarefeito de certas redações, é preciso ter a coragem de repensar todo o processo”, afirma o colunista, que parece disposto a não deixar pedra sobre pedra, como é fácil verificar.
“Autocrítica interna deve ser acompanhada por um firme propósito de transparência e de retificação dos nossos equívocos. Uma imprensa ética sabe reconhecer seus erros. Confessar um erro de português ou uma troca de legendas é relativamente fácil. Mas admitir prática de atitudes de prejulgamento, de manipulação informativa ou de leviandade noticiosa exige coragem moral. Reconhecer o erro, limpa e abertamente, é o pré-requisito da qualidade e, por isso, não é fácil conciliar a livre busca do interesse individual com o respeito a exigências comunitárias fundamentais”.
O ponto de vista de Lauria pode suscitar muita discussão, quem sabe discordância em vários pontos, porém ele expõe situações verdadeiras, a exemplo da “ditadura do deadline”, a temível hora do fechamento, hora de passar a matéria para o editor. E nem sempre editor tem paciência. Em jornal impresso, então, nem pensar em atraso! Há toda uma engrenagem para colocar o jornal na rua e a quebra da rotina só mesmo se alguém importante morrer. Ou um grande desastre acontecer. Mas, até que ponto o “deadline”, em dias normais, pode ser o culpado por uma reportagem mal feita? Dá para dividir a culpa com o editor?
Sobre pautas que podem sair da “cabeça de pauteiros anestesiados pelo clima rarefeito de certas redações”, é um caso a pensar. Repórteres de outras eras lembram bem que havia revisores de texto em todas as redações. Era um grande reforço. Ora, se um livro antes de ser publicado passa por inúmeras revisões, como dispensar um revisor de matérias que, quase sempre, são escritas na maior pressa? Sim, o editor também precisa ser revisor (o editor de hoje, um dia foi repórter, foca e não pode esquecer esse fato). Não se está a defender a falta de atenção do repórter na captação de notícia, o desconhecimento do assunto abordado ou descuido ao redigir a matéria. Afinal, o que aprendeu nas aulas do curso de jornalismo?
Ao longo do texto, Flávio Lauria deixa claro um quê de insatisfação com o jornalismo. Ou com aqueles que praticam o jornalismo da forma percebida por ele. Exemplo: sugere que jornalistas despreparados acabam sendo manipulados pela fonte. “Repórteres carentes de informação especializada e de documentação apropriada acabam sendo instrumentalizados pela fonte”. Não é uma visão lisonjeira. Mas pode servir de reflexão. Ah, sim: no jornalismo, “fonte” é muito importante. Essencial. Repórter sem “fonte” é incompleto, digamos assim. Portanto, ter “fonte” realmente confiável é uma conquista. E repórter de verdade não se deixa manipular.

