Início Mundo Eleições na província de Buenos Aires são 1º grande teste de Milei após escândalo
Mundo

Eleições na província de Buenos Aires são 1º grande teste de Milei após escândalo

LOMAS DE ZAMORA E BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - As imagens de Javier Milei sendo alvo de pedradas e insultos em um ato de campanha de Lomas de Zamora, na Grande Buenos Aires, ganharam o mundo há pouco mais de uma semana. Na última quinta-feira (4), no entanto, quem passava pela mesma esquina da avenida Hipólito Yrigoyen e o calçadão da rua Laprida parecia pouco preocupado com o fim abrupto daquela carreata do presidente.

"Ele saiu nas ruas em meio a um escândalo e logo em uma parte do conurbano [municípios que contornam a cidade de Buenos Aires] que ele nunca visita? Para mim, estava procurando uma confusão para distrair as pessoas na véspera da eleição", diz o vendedor de relógios Ermin Pereyra, 56.

O ataque a Milei em uma zona comercial da região metropolitana elevou a tensão dos últimos dias de uma campanha que, em outros momentos, não despertaria tanta atenção dos argentinos. Este domingo (7) será a primeira vez em 42 anos, desde a volta da democracia na Argentina, que a província mais populosa do país vai eleger legisladores separadamente do pleito nacional, que será em 26 de outubro.

A decisão de repartir as eleições foi do governador, Axel Kicillof, hoje o principal oponente de Milei. O peronista ganhou uma disputa interna com a ex-presidente Cristina Kirchner, de quem foi ministro, que preferia que elas não fossem divididas. O mandato dele termina em 2027.

Cristina chegou a lançar sua pré-candidatura a uma vaga de deputada pela província, antes de ter sua condenação a seis anos de prisão confirmada pela Suprema Corte e perder seus direitos de se candidatar.

Embora tenha rachado o peronismo há quatro meses, a decisão pode ter sido acertada para a oposição, dada a atual fragilidade do governo nacional, que sofre desgaste desde o escândalo dos áudios que apontaram um suposto esquema de corrupção na compra de medicamentos no qual a irmã do presidente, Karina Milei, seria beneficiada.

"Kicillof separou as eleições devido a um conflito dentro do partido peronista em Buenos Aires, não por uma estratégia eleitoral voltada para competir com Milei. Com eleições unificadas, Cristina organizaria as listas de candidatos. E isso limitaria o poder do governador", avalia Miguel De Luca, professor das Faculdades de Ciências Sociais e Direito da Universidade de Buenos Aires.

Ele acrescenta que o governo esperava chegar aos pleitos mais fortalecido, mas está baqueado pelo escândalo dos áudios e a situação econômica mais frágil.

O atual momento de fragilidade política e econômica do governo faz com que as eleições tenham se tornado o primeiro grande teste de popularidade de Milei --a segunda será a disputa nacional. Milei, que há dois meses falava em "arrasar" nas eleições provinciais disse no ato de encerramento da campanha libertária, na última quarta-feira (3), que agora espera um empate.

"Todas as pesquisas mostram que estamos em uma situação de empate técnico, isso significa que qualquer um pode ganhar e significa que os votos daqui e dali definirão qual força triunfará e também que cada voto individual vale, mais do que uma eleição normal", alertou o presidente, em seu discurso em um clube de bairro em Moreno.

"O governo nacional retira fundos da educação e da saúde pública, tira remédios dos aposentados e ataca as pessoas com deficiência: todas essas são consequências de um presidente que governa odiando seu povo e desprezando nossa história e nossa cultura", rebateu Kicillof no encerramento da campanha peronista.

A capital do país, Buenos Aires, é uma cidade autônoma e já elegeu seus representantes em maio, antes da província que tem o mesmo nome.

Na província, são 14 milhões de pessoas aptas a votar agora, já que 4 em cada 10 eleitores argentinos vivem nela. O território é dividido em oito distritos eleitorais, cada uma delas funcionando como distritos independentes e com candidatos próprios.

Nas urnas, os eleitores terão de escolher listas partidárias de deputados ou senadores e, em algumas delas, também vereadores e conselheiros escolares. Esse sistema pode levar a uma dupla interpretação sobre quem ganhou as eleições: a força política que obteve o maior número de votos em toda a província ou a que conseguiu mais cadeiras no Parlamento.

A cada dois anos, metade das duas Casas é renovada. Em 2025, estão em jogo 46 das 92 cadeiras de deputados provinciais e 23 das 46 vagas no Senado local. Para conseguir um lugar, cada força política deve ter um piso mínimo de votos, que varia em cada um dos grupos de municípios.

O principal embate será entre os peronistas, agora reunidos com o nome de Frente Pátria, e o grupo de A Liberdade Avança (de Milei) que absorveu os candidatos do PRO (Proposta Republicana, do ex-presidente Mauricio Macri). O primeiro e o terceiro distritos concentram cerca de dois terços do eleitorado, embora não tenham peso proporcional no Legislativo.

Os peronistas são mais fortes no terceiro distrito eleitoral, no sul do conurbano e com 5 milhões de eleitores, onde estão localidades como Avellaneda, La Matanza e Lomas de Zamora. Já o grupo de Milei deve se sair melhor no sexto distrito, com 600 mil eleitores, onde está a cidade de Bahía Blanca.

A principal disputa será pelo primeiro distrito, com 5 milhões de eleitores e com municípios importantes, como Tigre, Vicente López e San Isidro, da parte norte e mais rica do conurbano.

Nenhum partido hoje tem maioria no Legislativo bonaerense. Os peronistas eleitos sob a coalização União pela Pátria, que apoiam Kicillof, compõem a primeira minoria nas duas Casas (têm 37 lugares na Câmara e 21 no Senado). Somados, A Liberdade Avança e PRO têm 26 deputados e 14 senadores. Por isso sair-se bem na disputa é ainda mais importante para o peronismo.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?