Assim que viu o resultado do concurso 1530 da Mega-Sena, ocorrido no dia 14 de setembro deste ano, J.A.S.F, de 40 anos, entrou em euforia: estava rico. Jogador costumaz há muitos anos, ele tinha certeza de que havia acertado as seis dezenas e recebido o prêmio máximo. Seu palpite poderia estar certo: de acordo com a própria Caixa Econômica Federal, dois sortudos receberam a bolada de R$ 7,8 milhões cada: um em Guarulhos e outro em Ribeirão Preto. Um pequeno detalhe, entretanto, impedia J. de se tornar um milionário: ele não achava o comprovante de sua aposta. Apenas dois meses depois, ele registrou Boletim de Ocorrência no 6º Distrito Policial por “extravio de documento”.
Enquanto isso, começou a suspeitar do irmão, R.A.S.F, de 37 anos. Ambos moravam juntos com a mãe - enferma - em uma casa na zona oeste. As suspeitas ficaram ainda maiores quando J. colocou um gravador no quarto do irmão e flagrou uma conversa com a namorada. “Agora não tenho que me preocupar com dinheiro”, teria dito ele, e em seguida planejou viagens. A gravação foi levada à Polícia Civil, que abriu no dia 26 de novembro um inquérito para apurar se o irmão havia furtado o bilhete.
Justiça
Além disso, os advogados de J. ingressaram no dia 5 de novembro com um pedido na Justiça Federal, solicitando que as câmeras de segurança da lotérica em que ele apostou fossem recolhidas e que J. fosse ouvido. Os advogados pediram que o processo corresse sob urgência e sigilo - o que ainda não ocorreu. Nesta sexta-feira (13), o juiz da 7ª Vara Federal ainda não havia se manifestado sobre o mérito do pedido, mas determinou que J. depositasse R$ 70 mil pelas custas processuais - 1% de R$ 7 milhões.
Saque
A assessoria de imprensa da Caixa Econômica Federal informou ao A Cidade que o ganhador de Ribeirão Preto do concurso 1530 retirou o dinheiro em 20 de setembro - quatro dias após o sorteio. Essa informação não havia sido enviada, oficialmente, ao inquérito policial. “Se alguém retirou o dinheiro, terá que provar que realmente é o dono do bilhete e aparecer nas imagens da lotérica fazendo a aposta”, diz o advogado de J., Renato Rosin Vidal.
Irmão nega furto e diz que está sendo ameaçado
Procurado pelo A Cidade, o irmão de J. disse que não iria se manifestar. Seu advogado, Daniel Rondi, foi duro em relação a acusação. “Meu cliente nega peremptoriamente qualquer tipo de furto, essa acusação beira a loucura, pode ser motivada por problemas de saúde”, disse. A reportagem apurou que o acusado fez boletim de ocorrência no dia 30 de novembro contra J. e um primo por estar sendo ameaçado de morte. Com medo, ele se mudou da casa em que vivia com a mãe e o irmão. Questionado sobre a gravação, Rondi diz que seu cliente estava conversando sobre o que faria se ganhasse na loteria, e não planejando o que seria feito com o dinheiro do suposto bilhete premiado do irmão.
Delegado diz que demora é estranha
De acordo com Samuel Zanferdini, delegado do 6º Distrito Policial, “por hora não foi constatado que J. é o ganhador, nem que seu irmão tenha furtado o bilhete”. Ele oficiou no dia 26 de novembro a Caixa Econômica Federal para informar se o prêmio já foi retirado (conforme informado ao A Cidade pelo banco), mas ainda não recebeu resposta. O delegado adianta que achou no mínimo estranho o fato de J. ter comunicado aos policiais que perdeu o bilhete quase dois meses após o sorteio. Além disso, afirmou que tanto J. quanto seu irmão não são pessoas com muita renda, e que não há qualquer indícios de que algum dos dois tenha retirado os valores do suposto prêmio.
A Caixa Econômica Federal informou que o prêmio é retirado apenas mediante a comprovação oficial de que a aposta foi feita na lotérica.

