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Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, é um mestre das redes sociais. Mas para quê?

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Foto: Reprodução

Os políticos começam a trabalhar só depois que o Carnaval termina, diz uma piada dos brasileiros. Os tweets explosivos do presidente Jair Bolsonaro atrasaram neste ano negócios sérios como a reforma da Previdência e o combate à corrupção. Em 5 de março, o presidente postou um vídeo de um folião urinando em outro numa performance artística. “É isto que tem virado muitos blocos de rua no carnaval brasileiro”, ele lamentou. Alguns brasileiros ficaram constrangidos, mas o tweet recebeu 87 mil likes. No dia 10 de março, o Sr. Bolsonaro atacou uma jornalista de ‘O Estado de S. Paulo’ que investiga seu filho, Flávio, senador pelo Rio de Janeiro. #EstadãoMentiu se tornou o principal trending topic do Twitter no Brasil. A Ordem dos Advogados do Brasil criticou o presidente. Mas ele não deletou os tweets.

Sr. Bolsonaro depende ainda mais das redes sociais do que Donald Trump, alguém de cujas visões de mundo compartilha. Eles têm encontro marcado em Washington para o dia 19 de março. Diferentemente do presidente americano, ele não fez comícios estridentes. Em contraste a Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente brasileiro de esquerda que agora está cuprindo sentença na prisão por corrupção, ele não desfruta de contato físico com seus apoiadores. Ele evita aparições nas principais emissoras de TV na maioria das vezes. Ao invés disso, Sr. Bolsonaro alcança a maioria dos brasileiros em miniatura, pelas telas de seus smartphones.

O sucesso dele pode estar relacionado à intensa paixão do brasileiro pelas redes sociais. Mais brasileiros estavam no Orkut, uma rede social do Google, do que cidadãos de qualquer outro país. Em 2011, o Orkut tinha 33 milhões de usuários brasileiros. Depois do fim da rede em 2014, os brasileiros se tornaram a terceira maior nação no Facebook, depois de indianos e americanos. 

As redes sociais foram as únicas saídas para Bolsonaro quando ele se lançou na campanha presidencial saindo do baixo clero do Congresso. Sua pequena coligação deu a ele pouco direito a tempo de TV e rádio. 

Irritado pela violência, escândalos e pela grande recessão, eleitores estavam prontos para as mensagens confiantes de Bolsonaro sobre crime, corrupção e valores familiares. Seus apoiadores mais antigos não confiam na grande imprensa, diz Esther Solano, da Universidade Federal de São Paulo, que entrevistou dezenas deles. “Eles supõem que as mídias sociais são mais sinceras, pois está cheia de amigos e familiares.”

Enquanto presidente, Sr. Bolsonaro ainda faz publicações para seus 10,7 milhões de seguidores no Facebook e 3,7 milhões no Twitter. (Outro de seus filhos, Carlos, vereador no Rio de Janeiro, é apontado como o coordenador das contas e que escreve muitos dos epigramas.) No do 7 de março, o presidente falou por 20 minutos numa live no Facebook, a primeira parte do que ele disse que seria uma série semanal.

A questão é se ele pode ou vai usar esse tipo de episódios para promover as pautas mais importantes de seu governo. Diferente do Sr. Trump, ele não tenta aparentar ser um expert em todas as áreas da política. Ele terceirizou a reforma da Previdência, que é vital para estabilizar as finanças do governo, a Paulo Guedes, o ministro da Economia liberal, a o fortalecimento da lei a Sérgio Moro, ministro da Justiça.

Sr. Bolsonaro usa a rede social mais para saudar seus apoiadores do que para informá-los. Uma análise do ‘Estado’ dos primeiros 515 tweets como presidente, publicados entre 1º de janeiro a 5 de março, mostrou que 95 deles fazia saudações a amigos e aliados, 51 sobre questões ideológicas, 31 criticando a imprensa, 30 rebatendo críticas e apenas 5 mencionando a reforma da Previdência. Quando ele menciona reformas, seus apoiadores recuam. “Se eu soubesse que ele mandaria a proposta rígida de Paulo Guedes (Cavalo de Troia) ao Congresso, eu nunca teria votado nele”, escreveu uma mulher no Facebook.

Mas o Sr. Bolsonaro terá que arriscar esse tipo de reação. Diferente dos presidentes passados, ele não tem uma grande base unida por clientelismo e dinheiro para congressistas - apesar do governo ter recentemente oferecido R$ 1 bilhão para projetos locais dos parlamentares (“pork-barrel spending”, em inglês, é uma expressão usada para a prática de parlamentares alocarem verbas públicas destinadas a eles em determinadas áreas para favorecer a si e seus aliados políticos). Para avançar em sua agenda, ele precisa alcançar cidadãos comuns mais do que seus antecessores conseguiram. Hamilton Mourão, o vice-presidente, diz que o Sr. Bolsonaro deveria usar na rede social “uma linguagem que as pessoas entendam, para convencê-las que o atual sistema de Previdência está esgotado e que o País vai ficar ingovernável se continuarmos desta forma”.

O Sr. Bolsonaro talvez esteja ouvindo. Em sua primeira aparição no Facebook ele gastou 90 segundos falando sobre a “Nova Previdência” antes de voltar a assuntos mais agradáveis. Ele criticou o governo por distribuir panfletos de saúde sexual para adolescentes e prometeu acabar com radares. Talvez esta seja a forma de vender a reforma da Previdência. Os brasileiros assim esperam.

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