A Coreografia das Lágrimas e o vale tudo pelo poder
Há um limite moral que separa a dor humana da estratégia eleitoral. Quando esse limite é ultrapassado, o que era tragédia se converte em instrumento. E instrumento de poder.
A morte de um filho recém-nascido é uma ferida que nenhuma palavra alcança. É silêncio. É recolhimento. É luto verdadeiro. Mas quando, exatamente 30 dias após essa perda, convoca-se uma coletiva para anunciar candidatura ao Governo do Amazonas, precedida de um choro cuidadosamente introduzido antes do discurso político, o gesto deixa de ser apenas humano. Torna-se político. Calculado. Coreografado.
Não se está julgando a dor. Está-se julgando a utilização pública da dor.
O prefeito de Manaus não é um cidadão comum. É chefe do Executivo municipal. Cada gesto seu, sobretudo em período pré-eleitoral, tem dimensão simbólica. E quando o anúncio de um projeto de poder vem embalado em emoção recente (e não é a primeira vez que isso acontece, Manaus sabe o que estou dizendo) cria-se um escudo moral conveniente: quem critica essa vergonha parece desumano.
Mas a democracia não pode ser sequestrada por chantagem emocional, ainda mais de um prefeito homúnculo.
A Bíblia é contundente ao advertir contra a teatralidade da aflição. Em Mateus 6:16, lê-se:
“Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas, porque desfiguram o rosto para parecer aos homens que jejuam.”
O ensinamento é direto: há sofrimento legítimo, e há sofrimento performático. Há dor silenciosa, e há dor exibida para produzir efeito.
Quando lágrimas antecedem o anúncio de candidatura, a pergunta não é espiritual, é política: trata-se de luto ou de narrativa?
Em Eclesiastes 3:4, está escrito:
“Há tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear e tempo de dançar.”
Existe tempo para cada coisa. Misturar o tempo do luto com o tempo da campanha é dissolver fronteiras morais. É fundir altar e palanque. É usar a fragilidade humana como plataforma.
O problema não é anunciar candidatura. O problema é fazê-lo sob o manto da comoção recente, introduzindo lágrimas antes do projeto de poder. O problema é transformar o sofrimento íntimo em capital político.
Isso revela algo mais profundo, algo do pior do mau caratismo humano.
E há ainda outro ponto incômodo: a repetição de tragédias familiares como elemento narrativo recorrente na trajetória política. Quando eventos dolorosos passam a integrar o repertório retórico de campanhas, o padrão deixa de ser coincidência. Torna-se método.
A política exige coragem, mas não a coragem de anunciar candidatura após 30 dias de luto. Exige coragem de enfrentar críticas sem escudo emocional. Exige coragem de apresentar resultados sem dramatização. Exige coragem de submeter a própria gestão ao escrutínio, sem recorrer à blindagem afetiva.
Em Mateus 7:16, a advertência é clara:
“Pelos seus frutos os conhecereis.”
Não são lágrimas que qualificam um governante. São obras. São indicadores. São entregas. São reformas estruturais. São políticas públicas eficazes.
Lágrimas podem comover. Mas não governam.
A sociedade manauara não precisa de encenação emocional. Precisa de liderança sóbria, responsabilidade administrativa e debate elevado. Precisa de projeto, não de performance.
Porque quando o luto vira instrumento, a política deixa de ser serviço e passa a ser espetáculo.
E espetáculo, quando termina, apagam-se as luzes, mas os problemas permanecem.
Hissa Abrahão
Hissa Abrahão é economista, professor universitário, mestre, doutorando, ex-deputado federal e vice-prefeito de Manaus.
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