Bastidores da Política - Os amigos que ingressaram na polícia e se perderam


Os amigos que ingressaram na polícia e se perderam

Por RAIMUNDO DE HOLANDA

29/07/2021 20h08 — em Bastidores da Política

Alguns leitores  criticaram textos da coluna em relação ao caso da prisão do delegado Samir Freire, da Secretaria de Inteligência, que consideraram excessivos, mesmo levando em conta as acusações que pesam contra o delegado, e o que eles chamam de “obsessão do Holanda”,  em defender a exoneração do secretário de Segurança, Coronel Bonates.

Acho que não conhecem  o passivo criminoso dos dois secretários. Mas reconheço que o envolvimento de policiais com o crime  e a violência daí derivada não se resume a casos isolados.

Ingressar na Polícia exige vocação e uma compreensão do papel desse profissional  na sociedade.

É uma atividade necessária, que impõe ao policial muito preparo, um elaborado e exitoso  trabalho de inteligência por trás de cada ação envolvendo grupos sociais, especialmente favelados; uma disciplina que não há, seja na policia civil ou militar.

Sem disciplina, a policia rompe a tênue fronteira que delimita a missão de promover a segurança da sociedade da prática da violência contra essa sociedade.

Para concluir, tenho duas histórias da vida real para contar. Histórias que, como repórter policial, presenciei:

O CHICO, DELEGADO

Chico era uma pessoa calma e boa. Nos conhecemos no final dos anos 70, em grupos de jovens ligados à Igreja Católica em Manaus.  Ele era o  líder do grupo, admirado pelos colegas, defensor da liberdade e da justiça. Era um tempo no qual  as instituições haviam sido capturadas pelo Estado militarizado e  a Igreja era um refúgio para sementes que fariam o Pais renascer duas décadas depois.  O tempo passou, o regime esfriou, as instituições ganharam vida e Francisco resolveu se inscrever em concurso de delegado. Passou.

Como repórter,  era fácil entrar em uma delegacia e, sem ser importunado, o procurei. Um agente disse que ele estava  “conversando" com um preso na carceragem. Segui pelo corredor estreito que conduzia as celas e o vi dando "umas bolachadas" em um  preso. Presenciei aquilo com espanto. Ele virou-se para mim, me cumprimentou e percebi que nem seu olhar era o mesmo.

Aquele mundo de conflitos e medos no qual Francisco adentrou  por opção havia destruído o que de melhor conheci nele: a compaixão.

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RENATO, O PM MALVADO

Renato era meu vizinho. Um adolescente cheio de vida, solidário com os vizinhos, cortês com as mulheres, respeitoso com os velhos. Bom filho, elogiado pelos professores. O cara que causa inveja pela inteligência  e empatia, pela capacidade de compreender os outros  e compartilhar sonhos e segredos.

Entrou na Polícia Militar como soldado e chegou a cabo.  A farda pesava, a arma no coldre despertava um poder que apagava todo o brilho do  garoto que conheci. Certo dia, durante uma operação policial, atirou em dois homens por engano.  Aquele mundo que confronta força, poder pelas armas e conflitos havia destruído o menino dourado que conheci.

Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.