Alguns leitores criticaram textos da coluna em relação ao caso da prisão do delegado Samir Freire , da Secretaria de Inteligência, que consideraram excessivos, mesmo levando em conta as acusações que pesam contra o delegado, e o que eles chamam de “obsessão do Holanda”, em defender a exoneração do secretário de Segurança, Coronel Bonates.
Acho que não conhecem o passivo criminoso dos dois secretários. Mas reconheço que o envolvimento de policiais com o crime e a violência daí derivada não se resume a casos isolados.
Ingressar na Polícia exige vocação e uma compreensão do papel desse profissional na sociedade.
É uma atividade necessária, que impõe ao policial muito preparo, um elaborado e exitoso trabalho de inteligência por trás de cada ação envolvendo grupos sociais, especialmente favelados; uma disciplina que não há, seja na policia civil ou militar.
Sem disciplina, a policia rompe a tênue fronteira que delimita a missão de promover a segurança da sociedade da prática da violência contra essa sociedade.
Para concluir, tenho duas histórias da vida real para contar. Histórias que, como repórter policial, presenciei:
O CHICO, DELEGADO
Chico era uma pessoa calma e boa. Nos conhecemos no final dos anos 70, em grupos de jovens ligados à Igreja Católica em Manaus. Ele era o líder do grupo, admirado pelos colegas, defensor da liberdade e da justiça. Era um tempo no qual as instituições haviam sido capturadas pelo Estado militarizado e a Igreja era um refúgio para sementes que fariam o Pais renascer duas décadas depois. O tempo passou, o regime esfriou, as instituições ganharam vida e Francisco resolveu se inscrever em concurso de delegado. Passou.
Como repórter, era fácil entrar em uma delegacia e, sem ser importunado, o procurei. Um agente disse que ele estava “conversando" com um preso na carceragem. Segui pelo corredor estreito que conduzia as celas e o vi dando "umas bolachadas" em um preso. Presenciei aquilo com espanto. Ele virou-se para mim, me cumprimentou e percebi que nem seu olhar era o mesmo.
Aquele mundo de conflitos e medos no qual Francisco adentrou por opção havia destruído o que de melhor conheci nele: a compaixão.
———————————————————-
RENATO, O PM MALVADO
Renato era meu vizinho. Um adolescente cheio de vida, solidário com os vizinhos, cortês com as mulheres, respeitoso com os velhos. Bom filho, elogiado pelos professores. O cara que causa inveja pela inteligência e empatia, pela capacidade de compreender os outros e compartilhar sonhos e segredos.
Entrou na Polícia Militar como soldado e chegou a cabo. A farda pesava, a arma no coldre despertava um poder que apagava todo o brilho do garoto que conheci. Certo dia, durante uma operação policial, atirou em dois homens por engano. Aquele mundo que confronta força, poder pelas armas e conflitos havia destruído o menino dourado que conheci.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.
Aviso