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Os amigos que ingressaram na polícia e se perderam

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Por Holanda
30/07/2021 00h08 — em Coluna do Holanda

Alguns leitores  criticaram textos da coluna em relação ao caso da prisão do delegado Samir Freire , da Secretaria de Inteligência, que consideraram excessivos, mesmo levando em conta as acusações que pesam contra o delegado, e o que eles chamam de “obsessão do Holanda”,  em defender a exoneração do secretário de Segurança, Coronel Bonates.

Acho que não conhecem  o passivo criminoso dos dois secretários. Mas reconheço que o envolvimento de policiais com o crime  e a violência daí derivada não se resume a casos isolados.

Ingressar na Polícia exige vocação e uma compreensão do papel desse profissional  na sociedade.

É uma atividade necessária, que impõe ao policial muito preparo, um elaborado e exitoso  trabalho de inteligência por trás de cada ação envolvendo grupos sociais, especialmente favelados; uma disciplina que não há, seja na policia civil ou militar.

Sem disciplina, a policia rompe a tênue fronteira que delimita a missão de promover a segurança da sociedade da prática da violência contra essa sociedade.

Para concluir, tenho duas histórias da vida real para contar. Histórias que, como repórter policial, presenciei:

O CHICO, DELEGADO

Chico era uma pessoa calma e boa. Nos conhecemos no final dos anos 70, em grupos de jovens ligados à Igreja Católica em Manaus.  Ele era o  líder do grupo, admirado pelos colegas, defensor da liberdade e da justiça. Era um tempo no qual  as instituições haviam sido capturadas pelo Estado militarizado e  a Igreja era um refúgio para sementes que fariam o Pais renascer duas décadas depois.  O tempo passou, o regime esfriou, as instituições ganharam vida e Francisco resolveu se inscrever em concurso de delegado. Passou.

Como repórter,  era fácil entrar em uma delegacia e, sem ser importunado, o procurei. Um agente disse que ele estava  “conversando" com um preso na carceragem. Segui pelo corredor estreito que conduzia as celas e o vi dando "umas bolachadas" em um  preso. Presenciei aquilo com espanto. Ele virou-se para mim, me cumprimentou e percebi que nem seu olhar era o mesmo.

Aquele mundo de conflitos e medos no qual Francisco adentrou  por opção havia destruído o que de melhor conheci nele: a compaixão.

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RENATO, O PM MALVADO

Renato era meu vizinho. Um adolescente cheio de vida, solidário com os vizinhos, cortês com as mulheres, respeitoso com os velhos. Bom filho, elogiado pelos professores. O cara que causa inveja pela inteligência  e empatia, pela capacidade de compreender os outros  e compartilhar sonhos e segredos.

Entrou na Polícia Militar como soldado e chegou a cabo.  A farda pesava, a arma no coldre despertava um poder que apagava todo o brilho do  garoto que conheci. Certo dia, durante uma operação policial, atirou em dois homens por engano.  Aquele mundo que confronta força, poder pelas armas e conflitos havia destruído o menino dourado que conheci.

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Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

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