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O dia em que seu filho desapareceu


Por Raimundo de Holanda

17/05/2022 21h02 — em
Bastidores da Política



Em dez anos 9.129 pessoas desapareceram em Manaus e apenas  293 foram encontradas. São dados da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas. Não foram abduzidas ou sequestradas. Sumiram no calor de uma violência sem paralelo na história da cidade. 

Onde estão? Ninguém sabe. Podem fazer parte de outra estatística: a de pessoas assassinadas e não identificadas. 

Somente ano passado foram contabilizados 539 desaparecimentos, mas os homicídios somaram 1060. São números que se misturam e respondem ao sinal de luto de muitos pais que perderam a esperança de reencontrar o filho perdido.  

É  o caso do Paulo dos Santos, que em 2017 saiu com a namorada para ir ao cinema e não retornou. Os pais esperam até hoje que ele utilize a chave que sempre é deixada embaixo do tapete na entrada da porta, e entre com o mesmo sorriso de antes e com a perturbadora pergunta que eles torcem para ser repetida agora:”cheguei tarde, mãe?

Ou de Antônio, de 15 anos, que foi ao supermercado em 2015 e não retornou.  Não há corpos. Ou corpos há - e muitos - mas de difícil identificação, mutilados, com braços e cabeças arrancados, as vezes o coração retirado. São cadáveres que os pais não querem ver. Esperam porque a espera dá sentido à vida, revigora sonhos e desejos, mas também envelhece e um dia morre, tornando a dor mais insuportável.

Nos bairros mais pobres da periferia de Manaus os desaparecimentos  se tornaram uma rotina. São áreas onde o poder público foi rendido, a cidadania seqüestrada e um poder paralelo se instalou. 

E ainda falam que as instituições que conhecemos - judiciário, executivo, legislativo - funcionam. Funcionam para um grupo de privilegiados, não para o povo pobre da periferia das grandes e médias cidades. Lá manda o tribunal do crime.



Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.