Foram muitas as críticas ao ministro da Defesa, José Múcio, ao tentar enfrentar os problemas deixados por Bolsonaro dentro e nas portas dos quartéis com polidez e uma notável compreensão do momento explosivo pelo qual passa o País. O que falta de lucidez no novo governo, há na medida correta no novo ministro, que pelo seu perfil conciliador não deve sobreviver muito tempo no cargo.
Múcio deve ter compreendido, como bem poucos, que o problema não se concentra nos acampamentos de bolsonaristas, visíveis a olho nu, com suas barracas, churrasqueiras assando frangos e o chopp de graça que sustenta aquela gente. O problema é invisível. Está dentro dos quartéis.
O novo ministro da Justiça, Flávio Dino, tem uma receita perigosa: mandar a tropa de choque desfazer os acampamentos. Uma ideia contaminada pelo sentimento de revide do novo governo e que, se aplicada, pode ter consequências desastrosas, acendendo o pavio de uma crise ainda maior.
Paralelamente a isso, o governo cria uma espécie de Polícia Ideológica (concentrada na Procuradoria da Defesa da Democracia) para controlar as redes sociais e criminalizar os que criticam atos governamentais que considera “mentirosos e antidemocráticos”, como se o País não contasse com instituições sérias, como o Ministério Público e os tribunais, que apesar de todos os vícios, ainda funcionam. Com um Legislativo fortalecido pelas últimas eleições e habilitado a representar a sociedade e defender a democracia.
Lula assumiu sem conflitos e isso foi importante. Mas o País ainda está dividido e não há ninguém disposto a fazer a conciliação. Desde 1o de janeiro, quando tomou posse, Lula não fez outra coisa a não ser ameaçar os que hoje se consideram rebaixados do poder, numa inversão de status que seria natural em outros tempos, não agora, quando há incendiários de todos os lados.
Vejam a última decisão do ministro Alexandre de Moraes, ao quebrar o sigilo do bolsonarismo raiz, com o objetivo de atingir o comando do movimento.
Medida necessária? Talvez, mas não pacifica o País. O ministro se auto-confere um excessivo poder, que isola os demais membros da Corte, transformada num tribunal de um homem só.
O Brasil precisa de um Supremo onde os 11 ministros decidam em nome da justiça, sem ser carregado por um único membro, com tendência claramente autoritária. E no governo, alguém com capacidade de dialogar, de construir-senão alianças, uma trégua, respeitando as diferenças de pensamento, comungando com o principio básico de que, como partes de uma Nação, é preciso que todos respeitem a alternância de poder, e que a oposição a governos deve ser feita via partidos políticos e movimentos sociais claramente identificados com os anseios da população.
Não é um caminho difícil. O problema é que ninguém no novo governo parece disposto a trilhá-lo.
Coluna do Holanda
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.

Aviso