Greve de ônibus é chantagem de empresários contra o governo
- Os trabalhadores, que alegam atraso de salários, servem como massa de manobra por empresários sem escrúpulos e sem compromisso com a cidade.
A paralisação da frota de ônibus em Manaus nesta quinta-feira teve claros sinais de locaute. Foi incentivada pelo sindicato patronal sob o argumento de que o Estado não estaria repassando recursos que subsidiam a gratuidade do passe estudantil.
É preciso punir os culpados, romper uma concessão graciosa, que penaliza duplamente os usuários e afronta direitos fundamentais, como o de ir e vir.
Os trabalhadores, que alegam atraso de salários, servem como massa de manobra por empresários sem escrúpulos e sem compromisso com a cidade.
É evidente que a paralisação foi incentivada pelo Sinetram. Ou não teria partido do sindicato patronal a ordem de recolhimento de todos os ônibus às garagens.
Se trabalhadores estavam em greve por atraso de salários, por que direcionaram o protesto para o governo e prefeitura?
Mesmo considerando eventual atraso em repasse do subsídio, cabe às empresas a responsabilidade pelos salários de seus funcionários.
As cenas de humilhações em pontos de ônibus não podem se repetir: passageiros sendo obrigados a descer dos coletivos em meio ao calor de 35 graus. Velhos agoniados, crianças chorando. Seja qual for o motivo alegado para a paralisação, não autoriza ninguém punir usuários e submetê-los a vexames.
As empresas alegam atraso no repasse do subsídio que tornou gratuito o passe estudantil. É uma boa grana. Algo que, somado, resulta em cerca de R$ 1 bilhão/ano.
A gratuidade do transporte para estudantes é uma medida política, com custos altíssimos para a sociedade. De um lado, reforça o poder dos caciques e fideliza currais eleitorais, enriquece empresas que não investem em melhoria da frota e resulta, de quando em vez, em verdadeira chantagem do setor privado à prefeitura e ao governo do estado.
E é uma conta paga por todos os contribuintes. Essa benesse, como não funciona, também precisa ser reavaliada.
É hora de um nova licitação para o transporte coletivo, com empresas fortes, que não aceitem ingerência do poder político e cuja finalidade seja servir não aos caciques de ocasião, mas aos manauaras.
ASSUNTOS: governo do amazonas, Greve de ônibus, locaute, Manaus, passe estudantil, prefeitura de Manaus, Sinetram
Raimundo de Holanda é jornalista de Manaus. Passou pelo "O Jornal", "Jornal do Commercio", "A Notícia", "O Estado do Amazonas" e outros veículos de comunicação do Amazonas. Foi correspondente substituto do "Jornal do Brasil" em meados dos anos 80. Tem formação superior em Gestão Pública. Atualmente escreve a coluna Bastidores no Portal que leva seu nome.