RIO - O choro geralmente começa na plateia lotada. Mães, pais, avós não resistem à emoção de entrar no Theatro Municipal, a maioria pela primeira vez, e, naquele cenário glamoroso, ver seus filhos no palco ao lado de artistas como Malu Mader e Taís Araújo. A emoção se espalha ao longo da cerimônia. No final, alunos, professores, diretores e funcionários estão unidos numa choradeira que já faz parte do show.
A cada ano, a cena se repete na festa de encerramento da turma da Spectaculu, a escola de arte e tecnologia fundada pelo cenógrafo Gringo Cardia e pela atriz Marisa Orth para ensinar uma profissão técnica a jovens de 17 a 21 anos, todos de famílias de baixa renda. Os meninos saem prontos para trabalhar no mercado de espetáculos: contrarregras, cenotécnicos, assistentes de iluminação e figurino, cabeleireiros, maquiadores, fotógrafos. E 80% a cada ano conseguem emprego nas áreas. Taxa invejável no mercado brasileiro.
Em 18 anos de projeto, mais de 1.700 jovens de 60 comunidades do Rio foram formados nas aulas que transformam o galpão da Avenida Binário, ao lado da Rodoviária Novo Rio, num lugar alegre, efervescente, transformador. Quando criaram a Spectaculu, Gringo e Marisa queriam fazer algo prático para combater a pobreza. Cansaram de reclamar e decidiram assumir a responsabilidade usando a rede de conhecimentos que têm em suas áreas para levantar o projeto e ajudar a garotada a entrar no mercado. Durante o processo de criação dos cursos, perceberam que era preciso ir um pouco além de ensinar um menino da periferia a montar um cenário ou costurar um figurino de teatro. Investiram também em discussão de cidadania e direitos, aulas de expressão corporal e técnicas para falar em público. Eles aprendem a se comportar no mercado profissional e a se impor na sociedade. Passam a se aceitar como são e a conviver com quem pensa diferente.
— Homens heterossexuais que chegam aqui com pensamento homofóbico no final do curso andam abraçados com meninas trans — exemplifica Rogério José de Souza, coordenador pedagógico.
Até 2016, o projeto atendia por ano 150 jovens. Em 2017, a crise ceifou quase metade das vagas. Nenhuma empresa apoiou a escola. Dos 650 inscritos para seleção, foram escolhidos 79 jovens, que, além de aulas gratuitas, recebem uma ajuda mensal de R$ 200, almoço e lanche durante as quatro horas em que estudam. A seleção segue dois critérios: ser de família de baixa renda e ter estudado na rede pública. A escolha é feita depois de entrevistas com os candidatos. Quem entra não quer ir embora, mas cerca de 15% desistem no meio do caminho.
— A vida das famílias é muito difícil. Nem sempre um jovem pode ficar sem trabalhar para estudar. Não dá para abrir mão da renda — diz Souza.
Os jovens são obrigados a trocar o sonho por um salário fixo como caixa de supermercado ou porteiro.
Gustavo Sorrentino, de 21 anos, conseguiu manter o sonho. Morador da Vila São Luís, em Duque de Caxias, foi aceito na Spectaculu quando já ganhava R$ 800 como recepcionista. Praticamente a mesma renda da mãe, Cláudia, cuidadora de idosos. A conversa foi difícil. Sorrentino argumentou que não podia deixar a chance passar:
—Eu não queria ser mais um. Queria encontrar um rumo diferente na vida.
A decisão foi difícil. Cláudia relutou, mas concordou. Meses depois, caiu em prantos ao ouvir na rádio uma reportagem sobre a transformação que a escola faz na vida de gente como o ator Jonathan Azevedo, que brilhou como o Sabiá de “A Força do Querer” (veja depoimento abaixo). O que provocou a choradeira foi a possibilidade de ter negado essa chance ao filho por causa de um salário de 800 reais.
O filho de dona Cláudia foi um dos destaques da turma.
— Ele vai voar alto na profissão — diz Souza, lembrando que Sorrentino escolheu ser contrarregra, a função mais procurada pelos meninos da Spectaculu.
Nas duas primeiras semanas de aula, os alunos passam por todas as oficinas para escolher sua profissão. De maquiador a cenotécnico. De fotógrafo a auxiliar de figurinista. E ouvem relatos de profissionais que passaram pela escola e hoje são bem-sucedidos. No início, é raro alguém querer ser contrarregra simplesmente porque ninguém conhece o . Durante o curso, a situação muda.
— Eles se encantam com a chance de estarem junto ao ator, coordenando a cena — diz Souza.
Sorrentino também quer ser roteirista desde que um esquete escrito por ele seu sacudiu a escola.
O tema era o racismo. Sorrentino criou uma conversa entre um negro sendo trazido da África para trabalhar como escravo no Brasil e um personagem improvável, o futuro. Ao africano, o futuro explicava que ele seria açoitado, que trabalharia até a morte e que o martírio de pessoas como ele não acabaria com o fim da escravidão. E, pior, mais de um século depois pessoas que odeiam os negros seriam ovacionadas só porque cultivam esse ódio. O esquete foi um sucesso.
— Amadureci tanto neste ano. Aqui, eu me encontrei — resume Sorrentino.
Não foi o único. Paula Amaral, de 21 anos, dona de um lindo sorriso, chegou ao projeto tímida, mal falava, deprimida. Já tinha tentado entrar antes, mas não foi selecionada. Filha de um motorista de táxi e de uma confeiteira, moradora da Piedade, Paula estava procurando emprego de vendedora quando foi aceita e viu a vida mudar. Não só descobriu a paixão pela fotografia — seu sonho é trabalhar na revista como deixou a timidez de lado, passou a ter orgulho de ser negra e até voltou a se olhar no espelho, que evitava:
— Aprendi a aceitar quem sou e não ligar para o que as pessoas pensam.
Durante o curso, os alunos fazem estágio nas suas áreas. E, depois de se formar, entram para um cadastro de emprego, muito procurado por produtores de teatro, cinema e TV na hora de contratar técnicos. Por cinco anos, os jovens são orientados na vida profissional.
— Nós somos um trampolim. Jovens saem daqui capazes de seguir em frente na profissão e na vida — diz Souza.

