Marisa ficou chocada com a miséria. Argumentei que era uma realidade muito parecida com a nossa. Só que aqui nós não vemos porque temos uma espécie de apartheid da pobreza. A Marisa pirou. Decidimos ali criar uma escola para habilitar os jovens para trabalhar na área técnica de espetáculos.
Você já havia trabalhado em algum projeto antes?
Nos anos 1980, eu ajudei algumas ONGs. Isso me tocou muito. Porque de fato o trabalho ajuda. Basta um empurrão para transformar a vida de uma pessoa. Ajudar esses meninos é uma coisa que completa a vida da gente. Não viemos ao mundo a turismo, só para usufruir. Temos que pensar nos outros.
O currículo da escola inclui filosofia. Por quê?
Na verdade, é psicanálise. O jovem pobre não sabe nem o que é isso. Mas é uma chance de eles trazerem à tona suas questões. A escola é um palco onde os meninos descobrem do que gostam e quem eles são: homem, mulher, trans. Eles podem ser o que eles quiserem. Na escola, cada um se vê como é, se ouve e é ouvido.
Como o mercado de trabalho recebe seus alunos?
Muito bem. As pessoas comentam como eles são interessados, são curiosos. O aluno que estuda cenotécnica aprende não apenas a montar um cenário, mas também quem é Shakespeare. Ele desenvolve a curiosidade de saber do que fala aquela peça, quais valores estão expostos naqueles diálogos. Os garotos são muito imaturos no começo da vida profissional. Por isso, temos o núcleo de trabalho para acompanhá-los por mais cinco anos. E funciona. Outro dia, eu fui na Globo gravar um especial e me mandaram falar com o diretor de iluminação. Era um aluno da escola. Falei: ‘tá vendo? agora você é meu chefe’.
Nesses 18 anos de projeto, 2017 foi o pior do ponto de vista financeiro?
Foi muito difícil. Tanto quanto 2007, quando quase fechamos depois de perder patrocínio. Eu e Marisa vendemos um apartamento cada um. E chegaram dois anjos para ajudar a gente: Vik Muniz (artista plástico) e Malu Barreto. Ela levou o patrocínio da L’Óréal e o Vik, da Louis Vuitton. Nós renascemos das cinzas. Eles continuam com a gente. Temos hoje mais de 150 padrinhos, a maioria formada por atores e diretores. Eles acompanham a vida dos jovens.
Quanto custa manter a Spectaculu por ano?
Precisamos de R$ 1,4 milhão. Pagamos aluguel, professores, cozinheiras. Trabalhamos com máquinas de tecnologia que são de uma última geração. Não adianta ensinar os meninos de projeto com sucata. Eles nunca vão conseguir trabalho depois.
Você é otimista com o futuro?
Claro. Em 2017, o que salvou a gente foram os padrinhos e o Criança Esperança. Nossa escola é uma das mais bem-sucedidas do Brasil. Segundo a Viviane Senna ninguém tem o nosso grau de empregabilidade. Mesmo assim nenhuma empresa ajudou este ano. A gente se vira como pode. Todo mundo da escola está envolvido. Fizemos crowdfunding, leilões. A Marisa fez talk shows em teatro com renda para a escola. Eu fui ao Vietnã, em um encontro de empresas, e consegui um contrato com uma associação de filantropia suíça para 2018. Fui a Londres duas vezes só para tentar apoio. Isso atrapalha muito meu trabalho. Mas não dá para fechar a porta e ir embora. A Spectaculu é a minha vida. Eu não vivo sem a escola.

