Quem é Maria Lira, que saiu do Vale do Jequitinhonha e ganhou o circuito das artes

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

26/09/2021 14h02 — em Arte e Cultura

ARAÇUAÍ, MG (FOLHAPRESS) - Em meados da década de 1990, quem passasse pela estrada esburacada e cheia de curvas que liga Belo Horizonte à pequena Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, poderia se deparar com uma cena insólita. Nos morros que cortam a região, uma moça de meia idade com o cabelo partido em duas longas tranças cavoucava na terra ao lado de um padre de batina.

Acompanhando frei Chico em suas viagens por Minas Gerais, Maria Lira Marques observava do Fusca do religioso as serras em busca de diferentes tonalidades de terra --amarela, branca, avermelhada, rosada. Quando algo agradava a ela, pedia que o padre parasse o carro e ambos desciam para recolher o substrato, que a artista depois misturaria com cola e água para criar tintas de aspecto natural e toque rugoso.

Com materiais que incluíam até um pincel feito com a ponta do rabo de um gato, Marques usava as tintas da terra para pintar, em pedras ou sobre telas, animais que sua imaginação inventava.

"Você vê que meus bichos não são esses bichos daqui desse mundo, não. Às vezes esse ali parece que é um veado, eu não tive a intenção de fazer um veado, eu não tive a intenção de fazer determinado animal. Mas se as pessoas acham que parece, tudo bem", ela conta, em encontro no seu ateliê, localizado nos fundos de sua casa, em Araçuaí.

Essas pinturas, às quais a artista de 75 anos vem se dedicando com intensidade nas últimas três décadas, depois de diminuir sua produção de esculturas em barro devido à uma tendinite grave, passam agora por uma grande valorização nas mãos de galeristas e colecionadores. É uma segunda vida do trabalho de Marques, reconhecida anteriormente por suas máscaras de cerâmica e por pesquisar cantos populares de sua região.

Sua inserção no circuito das artes se dá pelo caráter singular de seu trabalho e também pelo fato de museus e galerias terem começado a expor mais artistas não brancos e de fora do centro. Um conjunto das pinturas dos bichos pode ser visto até o fim de outubro na galeria paulistana Bergamin & Gomide, que passou a representar a artista, e também na galeria AM, em Belo Horizonte, outra casa com direitos sobre as obras de Marques.

Mulher negra e pobre, como ela se define, Marques estudou até a sétima série do primário e não teve educação formal em arte. Com cinco anos, começou a observar os presépios em barro que sua mãe, uma lavadeira, fazia para presentear os vizinhos todo final de ano. Em seguida começou a modelar pequenas figuras a partir da cera de abelha que o pai, sapateiro, passava na linha para costurar calçados.

Ela então passou a frequentar o mercado central de Araçuaí, epicentro da vida pública da cidade, onde descobriu potes, panelas e botijas de barro, seu primeiro contato com a cerâmica utilitária típica da região. Curiosa, conversava com os artesãos para aprender.

"Eu começava a indagar --por que a peça é dessa cor? Porque ela vai no forno. Por que é lisa? E cada um ia me dando uma definição. Aí eu chegava e comentava com minha mãe. Ela não tinha forno, então ela não queimava nada que fazia. Ela fazia mistura de alguns ingredientes no barro pra dar liga, como as cinzas."

Por volta dessa época, nos anos 1970, Marques conheceu Joana. A vizinha ensinou a ela onde buscar barro e como escolher a lenha certa para queimar as peças que passaria a produzir. De seu primeiro forno saíam pequenas esculturas mostrando "o sofrimento das pessoas, tanto do Vale do Jequitinhonha como de um modo geral no mundo", conta a artista. Estavam representadas cenas como uma enchente em Araçuaí e um aldeia africana, e havia também uma pequena estatueta com o triste título "Me Ajude a Levantar".

Marques criava ainda máscaras com traços de feições negras e indígenas, em alusão tanto à sua ascendência quanto aos maxacalis, povo originário local, além de bustos com cerca de 20 centímetros de alguns filósofos. "Fazia de cabeça, imaginava e fazia. Depois é que eu fui conhecer o rosto de Sócrates. Na época, porque eu fazia os bustos, começou a chegar retrato de Roberto Carlos, Ronnie Von, mas nunca aceitei, porque não sei pôr lá na minha frente e ficar copiando. Sempre trabalhei de imaginação."

Situada às margens do rio de mesmo nome, Araçuaí é uma cidade de 36 mil habitantes distante 12 horas de ônibus de Belo Horizonte --o veículo treme tanto no asfalto esburacado ligando as cidades que a impressão é a de viajar dentro de uma britadeira. Sob o sol de 38 graus de setembro, há pouca gente andando nas ruas e o cenário lembra o filme "Bacurau", com casas coloridas algo degradadas e o eventual motoqueiro passando a toda velocidade, deixando um rastro de poeira.

Apesar da pobreza, aparente, por exemplo, nas casas de tijolo inacabadas, Araçuaí é a principal cidade do Médio Jequitinhonha, uma das regiões com os piores indicadores sociais do país. Mas Marques nunca pensou em sair da rua onde nasceu e morou a vida inteira, ela conta, apesar de ter recebido convites e exposto em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e na Bélgica, Holanda, Dinamarca, França e Estados Unidos.

Uma das razões é seu profundo vínculo com a cidade, que transparece na sua fala com a naturalidade de quem tem as memórias entrelaçadas com o local. Marques fundou lá um museu com peças suas e de outros artistas, a exemplo das esculturas em madeira de Dona Zefa, e além disso se dedicou, durante décadas, a gravar em fitas cassete e depois transcrever os cantos dos moradores das regiões rurais dos arredores, trabalho que fez a pedido de frei Chico, um padre holandês que virou seu grande amigo e parceiro profissional.

São versos de trabalho de tropeiros, boiadeiros e canoeiros, músicas religiosas, cantigas de roda e de pedir esmola. Durante esse período ela afirma ter perdido a vergonha de cantar, e então passou a integrar o coral local Trovadores do Vale, fundado por frei Chico. O grupo tinha como membros lavadeiras, donas de casa, sapateiros e comerciários, com repertório formado pelas músicas das pesquisas de Marques.

Dada a sua história de vida e seu reconhecimento prévio como uma importante figura local, por que a obra visual de Marques passa por uma valorização só agora? Por um lado, suas máscaras de barro e pinturas de terra são singulares no contexto do artesanato do Jequitinhonha, já que em nada lembram as bonecas e noivas de barro típicas da região, das quais Dona Isabel, morta em 2014, é uma das maiores representantes.

"Você já pensou se todo mundo desgrama a fazer boneca? O que eu acho bonito na arte é a diversidade, não precisa eu fazer boneca porque tem Dona Isabel fazendo boneca, tem a neta dela fazendo boneca, os filhos dela, e a comunidade quase toda trabalha com a cerâmica que ela passou para as pessoas. A arte é universal, e a diversidade é o que faz a beleza", ela diz, serena, justificando a escolha de temas próprios para a sua produção.

Há também um interesse de museus e galerias em deixar de representar apenas as elites urbanas do sudeste e fazer com que a sociedade se enxergue mais no sistema da arte, afirma Rodrigo Moura, curador-chefe do Museo Del Barrio, em Nova York, e autor do texto que acompanha a exposição da artista na galeria Bergamin & Gomide. Segundo ele, os espaços de arte não estão acostumados a esperar grandes artistas de fora dos centros urbanos, "mais por defeito nosso do que por falta deles".

Vilma Eid, fundadora da galeria Estação, especializada em artistas não eruditos, ou seja, sem formação acadêmica, dá como exemplo dessa valorização da arte popular uma série de mostras realizadas pelo Masp na última década, como as de Agostino Batista de Freitas, Maria Auxiliadora e Conceição dos Bugres, e a recente exposição "Terra e Temperatura", na galeria paulistana Almeida & Dale, que colocou o marceneiro baiano Mestre Guarany ao lado de nomes do cânone como Tarsila do Amaral e Mira Schendel.

Eid levanta a hipótese de que a grande exposição "Brasil +500 Mostra do Redescobrimento", curada por Emanoel Araújo no ano 2000, pode ter plantado a semente do que se vê hoje, ao trazer naquele momento obras de artistas populares, afro-brasileiros e indígenas. Talvez aconteça agora uma ressignificação do que já existe, ela pondera, acrescentando que brigou muito para que seu negócio fosse reconhecido como uma galeria de arte e não de artesanato.

Segundo Renan Quevedo, pesquisador de arte popular brasileira, "todos os profissionais do mercado de arte tem percebido a lacuna que existe na construção de uma definição de arte brasileira."

"É muito fácil a gente pensar nos contemporâneos superbem-sucedidos. A gente precisa encaixar a dita arte popular nessa história para que a gente consiga ter uma cronologia mais bem construída dessa narrativa", ele diz.

Há sete anos, Quevedo viaja o interior do país em busca de artistas populares. Ele relata que, neste período, viu também o mercado de decoração se inclinar mais a levar este tipo de arte para dentro das casas, com arquitetos e decoradores procurando cada vez mais peças entalhadas em madeira ou esculturas em barro, comuns em diversas regiões do Brasil.

Com o interesse crescente, de um ano para o outro as cifras das pinturas de Marques pularam das centenas para os milhares de reais, e não se pode mais adquirir diretamente da artista, devido a seu contrato de exclusividade com as galerias. Ela usa o influxo de dinheiro das vendas para comprar remédios que não consegue pegar pelo SUS e também para reformar seus dentes.

O próximo passo é construir, no terreno vazio ao lado de seu ateliê, um cômodo para receber o séquito de pesquisadores, cineastas, colecionadores, lojistas e jornalistas que vão até sua casa. Nos últimos meses, conta, o telefone de sua sobrinha e assistente não para de tocar.

O jornalista viajou a convite da galeria Bergamin & Gomide


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