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'Floresta' com obras de Frans Krajcberg ocupa MuBE em grande mostra do artista

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

21/05/2022 10h05 — em
Arte e Cultura



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - No final dos anos 1970, os artistas Frans Krajcberg e Sepp Baendereck fizeram uma viagem de barco pelo rio Negro com duração de pouco mais de um mês. Aquela era a primeira vez que Krajcberg, polonês radicado no Brasil e reconhecido por trabalhar com questões ambientais em sua obra, ia para a Amazônia.

O artista voltaria para a região diversas vezes na década seguinte, mas não para fazer a viagem "idílica pelo rio Negro, que você fica no barco tomando cerveja e vendo o rio passar", diz seu biógrafo, João Meirelles. Viajando por terra, nas idas seguintes Krajcberg viu a colonização e o desmatamento.

"Quando ele teve o impacto da queimada, virou um ambientalista roxo. Ele aprimora seu discurso, no sentido de 'eu sou um ambientalista, não sou um artista'", acrescenta Meirelles.

A vida e a obra do artista tornado ativista, já tratadas num documentário e bienais dentro e fora do país, ganham agora novo fôlego, tendo como mote os cem anos que Krajcberg teria feito no ano passado, se estivesse vivo.

Uma exposição no MuBE, o Museu Brasileiro da Escultura e da Ecologia, em São Paulo, faz uma antologia de sua produção entre as décadas de 1950 e 2010. Em paralelo, o ambientalista João Meirelles, também ex-presidente da fundação SOS Mata Atlântica, conclui uma biografia de Krajcberg, enquanto uma série de trabalhos do artista são restaurados e catalogados pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, o Ipac.

Embora o curador da mostra no MuBE, Diego Matos, afirme não achar o termo "retrospectiva" adequado para descrever a exposição, quem visita o museu pode acompanhar a progressão da obra do artista em cerca de 160 trabalhos, dos quais mais de uma centena veio do sítio Natura --uma casa construída no topo de uma árvore, onde Krajcberg morava, no sul da Bahia--, e o restante, de coleções particulares.

Estão expostas suas pinturas, ainda bem pouco vistas, gravuras e desenhos figurativos feitos num período que compreende o final dos anos 1940, antes de o artista aportar no Brasil, e o início da década seguinte, quando ele já estava em solo brasileiro. Dispostas no começo da exposição, as obras têm a figura humana e a paisagem como tema, mas também atestam como o interesse do artista progrediu para a abstração feita a partir de elementos da natureza.

Ele passou a representar no papel a textura de folhas, pedras e terra, materiais que também usava na composição das obras, aos poucos saindo do plano do quadro e se dirigindo ao espaço. Na década de 1960, começou a fazer grandes esculturas tanto com a madeira que sobrava da indústria de celulose do sul da Bahia quanto com a madeira residual de queimadas, material que se tornaria característico do seu trabalho.

As peças, dentre as quais exemplares das séries apelidadas de "gordinhos", "bailarinas" e "coqueiros", estão dispostas de modo a formar uma floresta no espaço expositivo do museu, e algumas delas se estendem do chão ao teto. Como não há faixas delimitando o quão perto se pode chegar das obras, o público caminha entre troncos retorcidos, raízes, pedras e demais materiais naturais que compõem o léxico do artista.

Krajcberg encontrou na mata atlântica e no cerrado abrigo para sua trágica história de vida, diz o curador. Judeu, o artista perdeu a família para os nazistas --sua mãe foi presa e enforcada e outros parentes morreram em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. A partir da flora brasileira, "criou uma arquitetura da natureza com sua obra, trazendo a questão ambiental como questão de ordem ética dentro da arte", acrescenta Diego Matos.

Ainda segundo o organizador, Krajcberg não está no eixo central da narrativa da história da arte brasileira, apesar ser um homem branco e europeu, porque ele tinha uma obra diferente da de seus pares em meados do século 20. Ele não trilhou o caminho da figuração nem o da abstração, embora tenha flertado com ambas as vertentes.

Essa história será contada na biografia do artista, resultado de um trabalho de 15 anos encampado pelo seu amigo João Meirelles, um ambientalista a quem Krajcberg encarregou de escrever um livro sobre sua vida.

Para compor o obra, que está em vias de ter o contrato de publicação fechado com uma editora, o autor entrevistou cerca de 80 pessoas que conviveram com o artista, entre amigos, funcionários e outros artistas, se debruçou sobre reportagens na imprensa brasileira e francesa e vasculhou os arquivos da Biblioteca Nacional. O título provisório do livro é "Frans Krajcberg, A Natureza como Cultura".

Meirelles, que andou Brasil afora com Krajcberg coletando madeira queimada, define o artista como um provocador permanente. "Ninguém sai ileso ao conviver com as obras dele relacionadas a queimadas, sejam esculturas ou fotografias. Ele me provocou a vida inteira, durante 40 anos. 'O que você está fazendo pela Amazônia, o que você vai fazer?' Ele fazia isso com todo mundo. É isso o que nós estamos precisando no Brasil de hoje, na Amazônia de hoje", afirma.

O biógrafo conta que o artista não deixou herdeiros e doou suas obras para o governo da Bahia. O Estado recebeu o acervo em 2009, mas só pôde de fato acessar as obras depois da morte de Krajcberg em 2017, aos 96 anos, diz João Carlos, diretor geral do Ipac. A mostra do MuBE vai depois ser exibida no museu Wanderley de Pinho, em Candeias, na região metropolitana de Salvador, espaço que também abrigará um ateliê de restauro e a catalogação dos trabalhos do artista. Uma vez renovados, eles voltarão para o sítio Natura, a casa do artista, que também deve passar por restauro.

FRANS KRAJCBERG: POR UMA ARQUITETURA DA NATUREZA

Quando: Até 31 de julho; terça a domingo, das 11h às 17h

Onde: MuBE - Rua Alemanha 221, Jardim Europa, São Paulo

Preço Grátis



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