SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo fizeram uma operação nesta sexta-feira (24) contra um plano da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) para matar autoridades públicas na região de Presidente Prudente, no interior de São Paulo.
Um dos alvos da facção era o promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado). Os criminosos também planejavam matar o coordenador Roberto Medina, responsável por unidades prisionais da região oeste do estado.
Ambos são alvo de ordens de assassinato no jargão criminoso, estão "decretados" há mais de dez anos pela organização criminosa.
O plano para matar o promotor e o coordenador de presídios foi descoberto após as prisões de Victor Hugo da Silva, conhecido como VH, e Wellison Rodrigo Bispo de Almeida, o Corinthinha, em Presidente Prudente. Os dois foram presos em flagrante por tráfico de drogas.
A partir da quebra de sigilo de celulares dos investigados, a polícia encontrou os indícios de que a facção monitorava a rotina do promotor e do coordenador em detalhes. A análise das mensagens também apontou para o envolvimento de Sérgio Garcia da Silva, conhecido como Messi, na ação.
Dados de geolocalização do aparelho apontaram que VH esteve pessoalmente em Presidente Vensceslau, nas imediações da penitenciária e do Poupatempo, locais de trabalho de Medina e sua esposa. VH fez levantamento completo do dia a dias deles, incluindo trajetos usuais entre o trabalho e a residência e modelos e placa de carros, tirou fotos e gravou vídeos da rotina do casal.
As informações do monitoramento foram enviadas ao celular de Corinthinha, segundo a apuração.
Gakiya relatou, durante uma entrevista nesta sexta, que membros da facção chegaram a alugar um imóvel a poucas quadras de sua casa, situada num condomínio residencial em Presidente Prudente, interior de São Paulo. Eles teriam usado o imóvel para levantar um drone que sobrevoou sua residência cerca de três semanas atrás.
A casa alugada por criminosos estava a apenas 900 metros do condomínio onde Gakiya reside. Ele afirmou que não se sabe em que circunstâncias o eventual ataque seria realizado, uma vez que os suspeitos foram presos ainda na fase de planejamento.
Messi era um dos membros da facção que acompanhavam a vida do promotor. Do celular dele foram extraídas imagens de revólveres, drogas e também conversas envolvendo a negociações de fuzis .556.
A investigação também obteve dados sobre trajetos feitos por Messi em Presidente Prudente, a partir do georreferenciamento armazenado em seu aparelho telefônico. Um relatório da Polícia Civil diz que "o ponto de mapa indica a região central, bem próximo ao prédio do Ministério Público".
Segundo o promotor, integrantes da chamada Sintonia Restrita do PCC setor responsável por planejar e autorizar ataques contra autoridades recebiam fotos, vídeos e informações do monitoramento da rotina de Medina e seus familiares e de Gakiya. "Essas imagens foram mandadas para integrantes da Sintonia Restrita", ele afirmou.
"A Sintonia Restrita é um setor que foi criado pelo PCC justamente para cometer atentados contra policiais e autoridades e também resgates", ele afirmou. "São integrantes que têm contato direto com a cúpula, estão em liberdade, normalmente são egressos ou foragidos."
Os membros dessa parte da organização criminosa atuam de forma separada e com funções específicas, mas sem conhecer o plano por completo, para evitar o vazamento do plano, diz a Promotoria.
A Folha de S.Paulo não teve acesso à defesa dos investigados.
Coordenador dos presídio da região oeste de São Paulo, Medina, não contava com escolta enquanto estava sendo monitorado. Ele já foi beneficiado com o serviço de segurança pessoal do estado, mas preferiu dispensar a escolta 24 horas por dia por não ter se adaptado à rotina.
"O doutor Roberto Medina teve a vida salva graças a nossa investigação, porque ele já poderia ter sido executado", declarou Gakiya.
A Operação Recon cumpriu 25 mandados de busca e apreensão nas cidades de Presidente Prudente (11), Álvares Machado (6), Martinópolis (2), Pirapozinho (2), Presidente Venceslau (2), Presidente Bernardes (1) e Santo Anastácio (1). A ação contou com os setores de inteligência da Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Penal e da Promotoria para descobrir e frustrar o plano antes de sua execução.
Duas pessoas foram presas em flagrante por tráfico de drogas. "Na ação, foram apreendidos mais de 4,3 quilos de drogas, quatro veículos, um simulacro de arma de fogo, 30 munições calibre .380, bem como R$ 7,6 mil em espécie", informou a Secretaria de Segurança Pública.
O procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, defendeu nesta sexta que discussões sobre a garantia de proteção para agentes públicos que trabalham no combate ao crime organizado, mesmo após aposentadoria, sejam retomadas.
"Qualquer país do mundo que teve ações dessa natureza reforçou, em primeiro lugar, a segurança dos agentes que combatem [o crime organizado], reforçou os mecanismos legais e todo o sistema de Justiça atuou", disse Oliveira e Costa. "O Ministério Público apoia toda e qualquer iniciativa que vise buscar, através de legislação segura, garantir a segurança de autoridades, não só na ativa, ou quando venham se aposentar, enquanto existir a situação de risco."
Gakiya voltou a defender uma agência nacional que coordene os esforços dos vários órgãos que atuam nessa área. "Numa comunhão de esforços, a gente conseguiria dar um passo decisivo para poder melhorar essa situação que hoje atingiu um patamar insustentável."


