Livro sobre caso Henry detalha rede de apoio usada por Jairinho

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

09/12/2021 9h37 — em Variedades

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - "Seria ótimo se conseguisse um laudo de um psiquiatra para falar que o vereador não tem nenhum transtorno de personalidade ou algo que aponte para uma personalidade agressiva ou sádica. Teria que ser, de preferência, um nome de inquestionável capacidade e não um médico que atenda Jairinho regularmente."

A mensagem foi enviada pela assessora parlamentar Cristiane Izidoro a um psiquiatra em 5 de abril, três dias antes de seu chefe, o ex-vereador carioca Jairo Souza Santos Júnior, e a então namorada Monique Medeiros serem presos durante as investigações da morte do menino Henry Borel, 4.

Essa é uma entre as conversas retiradas de celulares que detalham a rede de apoio com que o político contou enquanto a polícia tentava entender o que havia acontecido com a criança, levada morta e com sinais de agressão ao hospital pelo casal na madrugada de 8 de março.

Muitos desses diálogos estão agora no livro "Caso Henry: Morte Anunciada" (Máquina de Livros), que destrincha o crime que ficou estampado diariamente em jornais e TVs por mais de um mês e ainda não teve desfecho na Justiça. O casal é acusado de homicídio, tortura, fraude processual e coação de testemunhas.

A obra será lançada nesta quinta (9) pela jornalista Paolla Serra, repórter que trouxe o caso a público no jornal O Globo. É fruto de mais de oito meses de apuração, incluindo análises em 1.500 páginas de documentos, 50 mil arquivos digitais e 200 entrevistas, uma delas de Monique na prisão.

O livro de 240 páginas reúne, numa linha quase cronológica, todas as reviravoltas do caso já publicadas nesse período, desde quando o casal se conheceu até os dias encarcerados. Traz ainda um perfil dos principais personagens, passando pela infância, trabalho e relações amorosas.

Além das mensagens (nunca antes divulgadas) entre Cristiane e o psiquiatra -que recusou arrumar o laudo para Jairinho alegando não querer aparecer na mídia-, a história relembra conversas que indicam interferências principalmente da assessora e da irmã de Jairinho, Thalita Fernandes.

"Tem que fazer carinho na Ana. Conseguiu falar com ela? Cuida da Ana. Precisamos dela", enviou ele à caçula menos de seis horas antes de ser preso. Referia-se à ex-mulher Ana Carolina Ferreira Netto, que chegou a prestar queixa por agressão contra ele anos antes, mas voltou atrás.

O vereador ainda pediu que sua assessora falasse com outras duas ex-companheiras que prestariam depoimento. "Ela tem que ser grata a tudo", falou sobre Debora Saraiva, que posteriormente denunciou torturas ao filho. "Conversa com ela com muita calma", recomendou sobre Fernanda Abidu. "Conheço a fera", respondeu a assessora.

A babá Thayná de Oliveira, que foi peça-chave na investigação por ter narrado em mensagens outras agressões a Henry, também alegou ter sido orientada a mentir em seu primeiro depoimento por Thalita, Monique e pelo primeiro advogado do casal, André França Barreto. Eles negam e ela depois mudou seu testemunho.

As conversas nos telefones, recuperadas pela polícia por meio de um software israelense, são o principal fio condutor do novo livro. Sóbria, a narrativa traz com rigidez datas, números, preços e descrições das roupas que os personagens vestiam em casa ocasião.

Muitos dos diálogos virtuais são reproduzidos na íntegra, assim como uma longa carta que Monique escreveu na prisão descrevendo uma suposta relação de abuso e contando uma nova versão para a morte do filho.

A professora, que não foi ouvida novamente pelo delegado Henrique Damasceno após ser detida, diz que foi dopada por Jairinho e acordada por ele quando o menino já não respirava. Já a defesa do ex-vereador continua sustentando que houve um acidente.

Apesar de os fatos mais centrais já serem conhecidos do público, a jornalista traz alguns detalhes e curiosidades que não foram divulgados antes ou tiveram pouco destaque na época. Um deles indica, por exemplo, que Jairinho pode ter alterado a cena do crime.

Quatro horas após a morte de Henry, aguardando a liberação do corpo do filho no hospital, Monique percebeu que o namorado havia sumido. "Estava no posto aguardando você ir na DP", ele escreveu. "No posto com quem? Se estivesse me aguardando estaria no hospital", ela respondeu.

Nesse meio tempo, na verdade, o vereador voltou ao apartamento, como mostrou a câmera do elevador. Na delegacia, ele disse que foi trocar os chinelos por tênis. Às 14h, um primeiro perito esteve no apartamento e constatou que o ambiente estava milimetricamente organizado, diz o livro.

Mais uma cena de bastidores narrada é a da operação montada pela polícia para vigiar o casal um dia antes das prisões, com três equipes de tocaia, seguindo os carros que chegavam e saiam das casas das famílias. A polícia sustentou que o casal havia procurado residências de luxo em outra cidade na internet e havia risco de fuga.

Em outro trecho, a obra reproduz uma mensagem recebida por Jairinho seis dias após a morte do enteado, de um contato salvo como Rodrigo: "Bom dia, irmão. Preciso que você me ajude a pagar o agiota, até porque peguei o dinheiro para ajudar você na eleição", dizia. "Deixa comigo", o político respondeu.

O livro dedica um capítulo a polêmicas envolvendo o pai de Jairinho, o ex-deputado estadual Coronel Jairo, mas não se atém tanto aos indícios de ligação da família com a milícia na região de Bangu, zona norte do Rio -Jairinho, por exemplo, era citado em chamadas ao Disque Denúncia havia mais de dez anos.

Também cita a grande repercussão do crime na mídia, mas não discute documentos confidenciais vazados pelos investigadores nem possíveis consequências disso num futuro desfecho do caso. Agora, resta aguardar o resto do julgamento.



Livro "Caso Henry: Morte Anunciada" Autora Paolla Serra

Editora Máquina de Livros

Onde comprar www.maquinadelivros.com.br/livros/henry

Preço R$ 44,90 (impresso) e R$ 31,90 (e-book)

Lançamento 9 de dezembro, às 19h

Onde Livraria da Travessa - Shopping Leblon (av. Afrânio de Melo Franco, 290, loja 205A)


O Portal do Holanda foi fundado em 14 de novembro de 2005. Primeiramente com uma coluna, que levou o nome de seu fundador, o jornalista Raimundo de Holanda. Depois passou para Blog do Holanda e por último Portal do Holanda. Foi um dos primeiros sítios de internet no Estado do Amazonas. É auditado pelo IVC e ComScore.

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