"Sempre fui interessado pela importância do tempo na história da humanidade e, em particular, o nosso período de vida", disse ele ao Estadão , em uma conversa por Zoom. "Estou com 48 anos, com sorte posso chegar aos 80 (meu avô viveu até os 84) e pretendo aprender o máximo que puder até lá, o que vai influenciar na minha escrita."
O valor que Doerr confere ao aprendizado é tamanho que Cidade nas Nuvens é dedicado a uma categoria encarregada de preservar a sabedoria humana: os bibliotecários. E isso é personificado no romance nas referências que amarram a trajetória dos personagens em momentos históricos distintos que não são apresentados de forma linear - os capítulos dão saltos no tempo e são como peças de um quebra-cabeça.
A primeira figura apresentada é Konstance, menina de 14 anos que nunca pôs o pés na Terra, pois vive em uma nave estelar, alimentando-se de comida em pó e auxiliada por uma máquina de inteligência artificial chamada Sybil, que armazena todo o conhecimento humano. Estamos em 2146 e a aeronave Argos segue em busca de uma nova casa. Filha de um jardineiro que cultiva plantas frescas na viagem, Konstance arruma com cuidado pedaços de papel em cujas anotações a menina busca preservar uma história contada por seu pai e criada pelo filósofo grego Antônio Diógenes, provavelmente no século 1 d.C.
PÁSSARO
É o relato sobre Éton, homem que deseja ser transformado em pássaro e voar até um paraíso utópico no céu chamado Cuconuvolândia. Se Diógenes realmente existiu e o esquisito nome do sonhado local é inspirado em uma citação de As Aves, de Aristófanes, a amarração de tudo é fruto da imaginação de Doerr: é o fictício mito de Éton que faz o romance dar um salto no tempo e recuar até 1453.
Naquele tempo, em Constantinopla, Anna, uma órfã de 13 anos, graças à sua paixão por livros e bibliotecas, descobre a figura de Éton, cuja história Anna conta para a irmã adoentada. O leitor muda o capítulo e se descobre na década de 1950, no Estado americano de Idaho, onde Zeno Ninis vai lutar na Guerra da Coreia. Capturado, consegue sobreviver e acaba traduzindo o manuscrito de Diógenes.
Décadas depois, o ex-combatente, já trabalhando na biblioteca de sua cidade, Lakeport, ajuda um grupo de alunos a encenar uma peça de teatro, chamada Cuconuvolândia. O ano é 2020 e Seymour, um ecoterrorista, quer explodir uma bomba na biblioteca - como acredita que está vazia, ele pretende danificar os escritórios de uma incorporadora imobiliária vizinha. O problema é que o grupo está lá, ensaiando a peça com Zeno.
TURNOS
"Precisei estabelecer uma forma de trabalho para montar esse quebra-cabeça", diz Doerr. "Assim, pela manhã, cuidava de uma época da história e, à tarde, de outra. Eram momentos em que eu vivia intensamente ao lado desses personagens e seus anseios e me preocupava em balancear o excesso de informação para não sobrecarregar a história - o equilíbrio era, de fato, minha preocupação."
O escritor conta que, desde jovem, é fascinado pela divisão geológica da trajetória humana, buscando suas características marcantes - no período Ordoviciano, por exemplo, quando surgem os peixes primitivos, e também seu antecessor, o Cambriano, conhecido pela explosão de vida na Terra, com o surgimento de organismos multicelulares, há 541 milhões de anos. "Essa organização cronológica foi útil na escrita do romance."
Assim, em Cidade nas Nuvens, o escritor combina pesquisa e imaginação e, embora não revele uma visão utópica e otimista, ele também não é cínico, derrotista e destruidor - busca o equilíbrio. "O que me interessava era mostrar a importância dos guardiães do conhecimento, sendo bibliotecários ou não - cada um dos personagens tem uma relação como uma figura assim", conta Doerr. "Minha mãe era professora de Ciências e, quando estava cansada, ela transformava a biblioteca em uma espécie de creche para mim e meus dois irmãos, o que me fez ver que esse lugar era um verdadeiro paraíso, onde eu me sentia seguro."
CLIMA
Além da importância do conhecimento para a manutenção do ser humano, Doerr aponta ainda para a ameaça da destruição do planeta provocada pelo aquecimento global - não à toa, a nave que carrega Konstance busca um hábitat mais seguro e viável. "Estamos conectados historicamente aos nossos ancestrais, mas também por meio das nossas relações atuais. Basta notar que alguma alteração mais substancial no clima de Connecticut, por exemplo, pode afetar o de Goiás.
Espécies animais estão desaparecendo, a pandemia atual pode ter sido provocada pela destruição ambiental. Como escritor, tenho o dever de refletir sobre isso - e convidar o leitor a vir comigo."
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



