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Policial civil morto no Jacarezinho se casaria em 2018

RIO — Para tentar conviver com o pesadelo, ela pensa na sua história, inesquecível. Em 2015, durante um karaokê, no restaurante “Zé Mário”, na paradisíaca Fernando de Noronha, viveu uma das maiores emoções de sua vida. O namorado, sempre muito discreto, se preparou para subir ao palco porque o melhor cantor da noite ganharia uma diária numa pousada da ilha, o que muito lhe estranhou. O amor de sua vida, com quem já fazia planos íntimos de felicidade, a surpreenderia mais uma vez. Derreteu diante das primeiras palavras dele, que soaram como música.

— Ele me pediu em casamento diante do restaurante lotado — diz, com os olhos nostálgicos.

Ela se tornava, assim, a noiva do melhor cara do mundo. O namorado era Bruno Guimarães Bühler, de 36 anos, o Bruno Xingu, policial da Core, morto durante uma operação no Jacarezinho, na sexta-feira da semana passada.

Preservar uma das páginas mais emocionantes do casal tem sido uma forma de não desabar. A gerente de uma loja de surfe, no Recreio, de 28 anos, que prefere o anonimato, namorava o policial há cinco anos. Surfista, Bruno foi homenageado por outros atletas amadores como ele, no domingo, no Recreio. Esse novo momento, tão diferente dos anos felizes que passou, ela tem evitado. Até esta segunda-feira, não tinha conseguido ler as reportagens sobre o assassinato do agente. “Eu vou ver para quê?”, repete, não como uma explicação, mas como se perguntasse a si própria.

Pai de um menino de 6 anos, Bruno era reservado e preferia não revelar a profissão, inclusive no meio esportivo, para não expor sua família. Um dos mais eficientes atiradores do grupo de elite da Polícia Civil, ele participava de operações na favela para cumprir mandados de busca e apreensão e de prisões quando foi atingido mortalmente por um tiro no pescoço.

— Eu o conheci na loja onde trabalho. Ele foi, primeiro, cliente. Sempre comprava prancha, parafina e roupa. Eu só soube que era policial quando, em um encontro, ele me contou. Sempre foi muito na dele. Ele era policial lá. Aqui fora, era o Bruno Xingu, surfista. O apelido veio ainda da infância, quando ele morava na Barra. As pessoas de fora me mandaram mensagem dizendo que não sabiam que ele era policial — conta.

A vida de Bruno, formado em fisioterapia, tinha duas principais frentes, ambas marcadas pela paixão: a polícia, onde entrou em 2010, e o surfe, que descobriu ainda na infância. A noiva estava sempre ao lado dele, compartilhando dessa rotina dividida. Nas viagens, sobressaía o surfe. No dia a dia, a vocação do policial. Ultimamente, ela corria com Bruno, para ajudá-lo a se preparar fisicamente, já que ele tinha acabado de ser selecionado para um curso que o habilitaria a atuar em terra. Até então, ele integrava a equipe que apoiava os colegas em helicóptero.

O surfe nunca era esquecido. Em fevereiro, viajou com amigos para a Costa Rica. E já tinha um novo roteiro, com passagens compradas: em setembro, ele iria surfar em El Salvador.

— Era quando ele se desligava — resume a noiva.

Planos não faltavam. O casal se casaria em 2018. A lua de mel seria na Indonésia.

— A viagem foi programada para acontecer no período de ondas. Tudo tinha que ter o surfe — brinca a noiva, que ainda não conseguiu retomar a rotina. — Ele era meu companheiro. Não voltei ainda a fazer musculação e curso de inglês. Ele era meu par. Só fica o amor, a coisa boa, o alto astral. Era um moleque brincalhão, apelidava todo mundo. Só me chamava de “portinha”.

Apesar da crise financeira no governo estadual, Bruno não reclamava das condições, como o constante parcelamento de salário e o 13º atrasado. Ela conta que o policial, único de sua família, dizia que era incansável, capaz de morrer pela vocação.

— O Bruno sempre se oferecia para trabalhar. Já ficou três dias sem passar em casa.

A família de Bruno rebate a informação de que as operações no Jacarezinho acontecem por causa do assassinato do policial.

— Minha mãe sente muito porque estão atribuindo à vingança. Não estão respeitando a dor da perda do meu irmão. Eles foram para socorrer os PMs que estavam encurralados — diz a irmã, Carolina Bühler.

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