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PM e tráfico estão suspeita por mortes de menino de 10 anos e bebê no quinto mês de gestação

No Morro do Juramento, um menino de 10 anos, que havia saído de casa para comprar um picolé, foi morto com um tiro de fuzil no peito. No Complexo do Alemão, uma grávida, com desejo de comer um salgado, foi atingida por pelo menos três disparos e perdeu Lorena, o bebê que esperava. Os casos, que chocaram a cidade no fim de semana, envolvem dois lados opostos da guerra do Rio. Eduardo Henrique Carvalho Dias pode ter sido vítima de traficantes que há quatro meses se enfrentam pelo controle do Morro do Juramento, onde o menino morava. Já Karolayne de Almeida, que continua internada em estado grave e ainda não sabe da morte do bebê, pode ter sido ferida por policiais. O marido dela, Aílton Novoa, prestou depoimento ontem e contou que um PM disparou na direção do carro em que ele estava com a mulher.

Militar da Brigada Paraquedista do Exército, Aílton disse que um homem, na garupa de uma motocicleta, passou pelo carro do casal e deu cinco tiros para o alto, na comunidade Fazendinha. Alguns segundos depois, um policial, que estava deitado no chão e protegido numa esquina próxima, teria feito, segundo Aílton, vários disparos contra a moto, deixando o casal na linha de tiro. O delegado titular da 45ª DP (Alemão), José Mário Salomão de Omena, disse que o marido de Karolayne é capaz de reconhecer o PM que atirou com o fuzil. A Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) havia informado não ter registro de confrontos no Alemão no fim de semana.

— Ou a mulher dele foi atingida por um tiro disparado por um militar ou por alguém que estava atrás do policial, mas no interior da comunidade. Vamos por etapas — disse o delegado.

Omena pretende fazer uma nova perícia no carro do casal. Se algum projétil for localizado, ele vai pedir à Polícia Militar a lista dos fuzis acautelados na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da região para um confronto balístico.

— Ou o tiro partiu da arma de alguém que estava atirando contra os policiais, de dentro da favela, ou houve um confronto não declarado. Se algum policial for identificado como autor de tiros no fim de semana, será feito o reconhecimento dele pelo marido da vítima.

Enquanto a autoria dos tiros que atingiram Karolayne ainda é incerta, moradores do Morro do Juramento afirmam não ter dúvidas de que Eduardo Henrique Carvalho Dias foi vítima de uma guerra de facções. Há quatro meses, dois grupos de traficantes se enfrentam pelo controle da favela. Em novembro, um deles foi expulso do morro pelos rivais. Dois bandidos teriam voltado, no domingo à tarde, para se vingar. De moto, e com um fuzil, teriam feito disparos a esmo, na direção de um dos acessos ao morro. Um deles atingiu o menino Eduardo, que foi enterrado ontem, sob forte comoção.

Colegas de turma do garoto, alguns uniformizados, acompanharam, cabisbaixos, o cortejo. Um deles, também de 10 anos, contou que Eduardo, que tinha passado de ano e iria cursar a 5ª série do ensino fundamental, estava entusiasmado para participar da festa de encerramento do ano letivo da Escola Municipal Mato Grosso, onde ambos estudavam. A comemoração aconteceria hoje.

— Ele estava muito animado com essa festa de fim de ano. Ia ter muita comida e ele queria comer muito. Mas, agora, a gente não sabe como vai ser. Está todo mundo muito triste — disse o menino.

Na hora em que o caixão foi levado à cova, no Cemitério de Inhaúma, a turma de Eduardo não segurou o choro. O menino foi enterrado com a roupa nova, comprada especialmente para a festa.

A mãe de Eduardo, Ana Paula Carvalho de Oliveira, chegou a desmaiar no cemitério. Eduardo é o segundo filho que ela perde para a violência este ano. Em junho, um irmão mais velho do menino, de 17 anos, foi morto a tiros, também no Morro do Juramento.

— Perdi meu filho e nenhuma autoridade veio falar nada com a gente. Nessa hora, cadê o prefeito? Cadê o governador? É uma tristeza. Vocês não podem imaginar — disse Ana Paula, que precisou ser amparada por amigos e parentes e não teve condições de acompanhar o sepultamento.

Analfabeta e mãe de outros três filhos, de 20, 14 e 4 anos, Ana Paula tinha um carinho especial por Eduardo. Era o menino que a ajudava nas tarefas domésticas e lia para a mãe o que ela não conseguia entender. Ela contou que esperava o retorno do menino, no portão de casa, e que não viu o momento em que ele foi atingido no peito por um tiro de fuzil.

— Meu filho era estudioso. Não ficava na rua. Ele pediu para comprar um sacolé e eu deixei. Aconteceu tudo em um minuto. Meu filho não voltou, só o coleguinha que estava com ele. Isso é certo? Não é certo. Isso é errado — disse Ana Paula.

Depois da mortes dos dois filhos, a família quer tirar Ana Paula e os irmãos de Eduardo do Morro do Juramento. Nesta terça-feira, após o enterro, ela foi levada para casa de parentes, em Jacarepaguá.

— Não dá para ela viver mais ali. Aquilo é um inferno. Vamos tirá-la daquele lugar. Se fosse na Rocinha, na Zona Sul, todo mundo estaria protestando, mas não é. O Natal, para a gente, acabou — disse a tia-avó de Eduardo, Celia Regina Gomes Lopes.

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