RIO — Baltazar Francisco Júnior levou um susto quando chegou ao seu quiosque, na altura do Posto 4 da Praia de Copacabana, na manhã de sábado. Garrafas de bebidas, cigarros, comida congelada, talheres, pratos e copos haviam sido roubados. Arrasado, comprou mercadorias e passou o dia trabalhando duro, para tentar recuperar o prejuízo. À noite, foi embora para casa pensando “amanhã vai ser outro dia”. Mas se enganou.
— No sábado, levaram os produtos e utensílios que estavam na parte de cima do estabelecimento. Para evitar novos furtos, guardei o que sobrou no subsolo. Por incrível que pareça, no domingo, aconteceu tudo de novo. Esvaziaram a geladeira. Levaram carne e outros alimentos congelados, além da louça e do aparelho que recebe imagens de câmeras de segurança. O mais espantoso é que os roubos aconteceram em um lugar famoso no mundo inteiro, num cartão-postal do Brasil — lamentou o comerciante, que calcula ter perdido mais de R$ 2.500 em produtos.
As duas ações não são casos isolados. Somente este ano foram 19 roubos a quiosques da Praia de Copacabana — dez ocorreram nas últimas duas semanas, de acordo com a Orla Rio, concessionária responsável pela operação e manutenção dos estabelecimentos. A maioria dos crimes foi praticada durante a madrugada, quando o policiamento é mais escasso. Um suspeito já teria sido identificado por investigadores.
CÂMERAS FLAGRAM AÇÕES
Roubos semelhantes aconteceram na Praia da Barra. Propriedade dos argentinos Renato Giovannoni e Fernando Quirno, o quiosque Atlântico, por exemplo, foi arrombado seis vezes em menos de um ano. No entanto, a frequência de assaltos em Copacabana é maior, segundo a Orla Rio. No último dia 1º, um estabelecimento no calçadão do Leme foi invadido duas vezes por uma mesma gangue num período de uma hora. O prejuízo da dona do comércio, Ângela Pinto, passou de R$ 1.500.
Câmeras de segurança flagraram a ação dos bandidos. Eram três. A dinâmica, segundo os proprietários de quiosques, é quase sempre a mesma: dois assaltantes ficam em frente ao quiosque enquanto um terceiro entra pela parte superior, onde há um vão entre o telhado e a porta.
— Todos nós, comerciantes, estamos passando sufoco. Os casos vêm se intensificando. As câmeras de segurança registram tudo, mas não adianta. No ataque ao meu quiosque, carregaram o que puderam numa primeira leva, e, menos de uma hora depois, voltaram, para pegar o restante dos aperitivos, cigarros, isqueiros e bebidas — contou Ângela.
Há aproximadamente três meses, funcionários de um quiosque na altura do Posto 6 foram rendidos por um homem armado. Ele levou todo o dinheiro do caixa.
— O bandido chegou sozinho, numa motocicleta. Mandou todo mundo sentar e ficou apontando um revólver. Foi embora tranquilamente, por volta das 20h — lembrou um funcionário, que já havia sido rendido por um assaltante enquanto dormia no quiosque.
Na mesma época, homens armados fizeram refém uma garçonete de um outro quiosque. O crime aconteceu às 11h de um domingo, em março.
Alarmados, proprietários de quiosques estão investindo na instalação de câmeras e sistemas de alarme e vêm apelando para seguranças. Perto do Forte De Copacabana, o dono de um estabelecimento contratou um vigilante noturno. Antes, seus funcionários faziam um revezamento, dormindo dentro do comércio para tentar impedir assaltos. Não deu certo: vários foram rendidos, e a Orla Rio acabou proibindo esse tipo de iniciativa.
Um comerciante tentou instalar uma cerca elétrica na parte superior de seu quiosque, mas a concessionária não permitiu a conclusão do serviço. A Orla Rio informou que não há qualquer plano para alterar as características dos estabelecimentos.
Anteontem, proprietários de 55 dos 64 quiosques da Praia de Copacabana entregaram uma carta com um pedido de socorro a autoridades da área de segurança. Num trecho, eles ressaltaram a necessidade de um policiamento mais ostensivo na região:
“Mesmo considerando as dificuldades inerentes à segurança da população, acreditamos que o poder público precisa, sempre, imprimir todos os esforços à sua disposição, e de forma rápida, para que ocorrências como essas não se tornem , de fato, parte da nossa rotina, o que infelizmente já vem ocorrendo. Copacabana é o coração da Zona Sul, é a capital do turismo brasileiro, e estamos assustados, com medo, tristes e inseguros. Não temos mais a sensação de segurança. Como anfitriões da Cidade Maravilhosa, não podemos receber bem os turistas, de nada adianta termos uma boa estrutura, profissionais qualificados, boa gastronomia, se os visitantes e moradores não podem desfrutar de momentos de tranquilidade”.
O vice-presidente da Orla Rio, João Marcelo Barreto, chama a atenção para outros dois problemas: o excesso de camelôs na orla e o aumento da quantidade de moradores de rua. Ele defende um projeto de segurança específico para Copacabana.
— Queremos fazer algo em parceria com o poder público para gerar mais segurança. Estamos falando de um corredor turístico, um lugar muito importante para a cidade. A orla tem usuários de crack, moradores de rua e assaltantes circulando o tempo todo. Isso está nos preocupando. Sem falar nos ambulantes que vendem todos os tipos de produtos, como caipirinhas, em frente aos quiosques, que pagam impostos — afirmou Barreto, acrescentando que tem participado de reuniões com representantes do setor hoteleiro para tentar viabilizar a instalação de câmeras de segurança integradas ao Centro de Operações Rio, da prefeitura.
O policiamento insuficiente e a iluminação precária são apontados, por proprietários e funcionários de quiosques, como as principais causas do problema.
— Muita gente pensa que, por ser famosa, Copacabana tem polícia toda hora. Isso não é verdade. À noite, a situação se agrava. Já vi muitas cenas tristes na orla, como um homem ser esfaqueado por um ladrão — disse um comerciante.
pouco policiamento
Na madrugada de ontem, uma equipe do GLOBO circulou pela orla entre 1h e 2h e encontrou um policial em uma cabine no Leme e dois PMs fazendo patrulhamento em motocicletas. Procurada para comentar o assunto, a Polícia Militar informou que a Praia de Copacabana conta com cinco cabines e com “patrulhamento dinâmico”, realizado por duplas em carros e motos. Em nota, a corporação frisou que, de janeiro a maio, o batalhão do bairro, o 19º BPM, efetuou 338 prisões e apreendeu 133 crianças e adolescentes infratores na região em que atua.
A Polícia Civil iniciou investigações para identificar e prender os assaltantes de quiosques. No entanto, de acordo com o delegado Gabriel Ferrando, titular da 12ªDP (Copacabana), apenas dois comerciantes registraram casos na unidade. Ele pede às outras vítimas que procurem a delegacia.
Por sua vez, a Secretaria de Ordem Pública informou que a Guarda Municipal realiza patrulhamento em Copacabana 24 horas por dia e destacou que vem elaborando um levantamento de ocorrências que servirá como base para operações no bairro.



