RIO — A canjica acabou quando ainda tinha gente na fila, e as últimas caixas de vela foram disputadíssimas. Uma multidão tão grande de fiéis compareceu ao Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca, nesta terça-feira, para comemorar o dia do padroeiro, que nem mesmo os cerca de 50 mil pãezinhos distribuídos foram suficientes. O aumento de público chamou a atenção do frei José Pereira, reitor do santuário. Embora ele não saiba estimar a quantidade de devotos, já pensa em providências para o ano que vem:
— Vamos comprar um telão para que os fiéis que ficam do lado de fora possam acompanhar as missas. Não cabia nem um mosquito na igreja.
Para o frei Guido Scottini, a crise, não só financeira, mas também política e moral, contribuiu para o aumento:
— A crise faz as pessoas buscarem a Deus. Vimos mais fiéis pedindo emprego, melhores salários e ajuda para quitar dívidas.
A missa de meio-dia, celebrada pelo frei Neylor Tonin, foi um dos momentos de maior movimento. Enquanto centenas de fiéis se acotovelavam no interior do convento, outra multidão se arrumava como podia do lado de fora. Uns sentavam-se nos degraus. Outros se esgueiravam por um corredor lateral, onde frades abençoavam casais, para tentar se aproximar do altar.
Na confusão, destacava-se um grupo de sete mulheres, todas trabalhadoras de uma mesma empresa, no Centro. Há quatro anos, a turma é presença certa na festa de Santo Antônio. A ideia partiu de Vanessa Tracerra, de 29 anos. Devota do santo casamenteiro, ela percebeu que algumas colegas de trabalho estavam em busca do verdadeiro amor. Não teve dúvidas: levou todas para o convento, no dia da festa, em 2013.
— Na época, eu estava solteira e Vanessa me deu uma pequena imagem de Santo Antônio. No ano seguinte, conheci meu noivo no Tinder (um aplicativo para celular de paquera) e, em 2015, fiquei noiva. A imagem de Santo Antônio é poderosa — garante Bianca Sciammarelli, de 27 anos.
IMAGEM LEVADA PARA CASA
Nessa esperança se fia Glenda Rocha, de 29 anos, que este ano levou a imagem para casa.
— Tem que dar certo. Já está na hora, minha mãe não aguenta mais — brinca.
A aposentada Orchideia Machado, de 79 anos, moradora de Bonsucesso, foi ao local para agradecer:
— Há 30 anos, tive um câncer no seio. Fizemos uma trezena a Santo Antônio e fiquei curada. Desde então, venho agradecer todo ano. Desta vez, duplamente. Minha filha teve um câncer no intestino e está curada há um ano — conta.



