Início Rio de Janeiro ‘O carioca está no limite, pronto para uma guerra’, diz terapeuta Marina Sá
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‘O carioca está no limite, pronto para uma guerra’, diz terapeuta Marina Sá

RIO — Terapeuta Marina Sá, da Casa Antrropos, em Botafogo, afirma que rotina conflagrada do carioca esgarça o tecido social, rouba o sossego e, por consequência, reduz espaços de convivência.

Com o aumento da violência, qual é o estado da população do Rio hoje?

Eu diria que estamos à beira de um colapso. As pessoas que procuram ajuda têm chegado mais sofridas. Antes, o imaginário sobre a violência era maior. Agora, relatam vivências mais concretas.

Qual o impacto que sofre alguém que experimenta ou testemunha uma situação de violência?

É um desmonte que deixa a pessoa fragmentada. Muitas vezes, a realidade inteira fica impregnada daquela vivência. Durante um tempo, ela só fala naquilo. É um passado vivificado. E o sistema nervoso fica em alerta, como se fosse viver tudo de novo. Essa ameaça gera estresse. Há aqueles que sequer vivem a violência, mas os relatos no noticiário e nas redes sociais os deixam em pânico, uma das doenças que mais nos assolam atualmente.

Aparecem muitas pessoas relatando dores físicas também?

Às vezes, a alma, o psicológico não é escutado. O efeito dessas tensões não ouvidas vai se acumulando. A pessoa surta, não consegue levantar da cama. E há casos em que o corpo avisa, adoece para mostrar que há algo errado. Há quem acredite que terá um infarto e vai para o hospital. O médico diz que é emocional, e o paciente volta para casa. Atendo em Botafogo, onde as pessoas têm algum tipo de acesso, porém as desigualdades são imensas. É muito pequena a rede para atender quem tem menos recursos.

Como o cotidiano da cidade é afetado?

O carioca está no limite, pronto para uma guerra, sente-se acuado. E, às vezes, isso explode em casos de violência que tomam o cotidiano, como xingar alguém no trânsito. Ao mesmo tempo, os nossos espaços de convivência, como as praças, estão sem vida ou dominadas pela violência. As múltiplas atividades que as pessoas devem fazer para respirar são restringidas pela violência. O tecido social é esgarçado. Como seres sociais, precisamos recuperar esses espaços e cuidados interpessoais. A cidade tem uma vocação alegre, que vem sendo violentada. Precisamos mudar isso.

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