RIO - Acostumados a ver sem-teto nas calçadas e praças, moradores e comerciantes do Leblon e do Jardim Botânico agora se surpreendem com a ocupação de um novo espaço: os canais que cruzam os bairros. Diariamente, grupos consomem drogas, lavam roupas, tomam banho e até dormem nesses locais, em trechos onde o leito está quase seco. Além disso, há relatos de assaltos perto das margens dos pequenos rios. De acordo com testemunhas, alguns desabrigados são os responsáveis pelos assaltos.
— Quem vive ou trabalha na região vem sofrendo. Às vezes, a polícia aparece durante a noite e afugenta os grupos, mas, na manhã seguinte, eles voltam. Eles incomodam motoristas e pedestres porque são muito agressivos — afirmou o jornaleiro Luiz Gustavo, referindo-se aos moradores de rua que ocupam um trecho do canal da Rua Visconde de Albuquerque, no Leblon.
Presidente da Associação Amigos do Leblon e de Adjacências, Augusto Boisson disse que, durante o dia, a maioria dos sem-teto fica concentrada na Avenida Ataulfo de Paiva e, quando escurece, parte deles se dirige para os canais:
— Nossa grande preocupação é com os roubos e furtos. Equipes da Secretaria municipal de Assistência Social e Direitos Humanos até passam pela região, mas não conseguem resolver o problema da crescente população de rua, já que a lei impede que um sem-teto seja levado de forma compulsória para um abrigo.
Evelyn Rosenzweig, presidente da Associação de Moradores e Amigos do Leblon (AmaLeblon), ressalta que há uma mudança no perfil dos moradores de rua do bairro e critica a falta de políticas públicas:
— A gente está vivendo um momento muito estranho, sem repressão. Hoje percebemos que a população de rua, em sua maioria, não é aquela que estávamos acostumados a ver. Não são pessoas carentes, que precisam de atendimento social, que estão pelas ruas do bairro. São famílias inteiras que vêm para cá, gente que trabalha como flanelinha e que não volta para casa porque passou a usar os canais para dormir, tomar banho ou lavar roupa. A legislação é usada como desculpa pelo poder público, que não consegue desenvolver trabalhos eficientes para a questão.
Com o leito seco em diversos trechos, o canal da Rua Batista da Costa, no Jardim Botânico, virou moradia para várias pessoas. Ali, canos se tornaram varais improvisados, e, segundo moradores da área, a quantidade de colchões aumenta a cada dia. No sábado, uma equipe do GLOBO flagrou cinco homens dormindo no trecho próximo à Avenida Lineu de Paula Machado.
— Essa cena, infelizmente, é comum por aqui, e, obviamente, vem impactando meu negócio. Clientes ficam desconfortáveis. A prefeitura precisa agir, para que o problema não tome uma proporção ainda maior — reclamou um comerciante, que pediu para não ser identificado.
O secretário municipal de Assistência Social e Direitos Humanos, Pedro Fernandes, que tomou posse na última sexta-feira, disse que iria aos locais apresentados pela reportagem para analisar a situação da população de rua.

