RIO - A eleição que escolheria o próximo governador se aproximava. Naquele agosto de 2010, os candidatos prometiam reforçar o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), iniciado dois anos antes. Mas a cidade que receberia os Jogos Olímpicos viveria um pesadelo. Às 6h30m do dia 21, um sábado, bandidos da Rocinha armados com fuzis, granadas e pistolas cruzaram a Avenida Niemeyer e entraram em confronto com a polícia. Na fuga, dez traficantes invadiram o Hotel Intercontinental, em São Conrado, e fizeram 35 reféns, entre hóspedes e funcionários.
O grupo era encabeçado por Rogério Avelino dos Santos, o Rogério 157, um dos seguranças do então chefe do tráfico da Rocinha, Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem. Hoje, o mesmo Rogério comanda boa parte da favela e, desde o mês passado, entrou em uma guerra pelo controle da venda de drogas na comunidade. Outros três integrantes do bando que aterrorizou o Intercontinental também viraram personagens centrais dos confrontos recentes. E apenas três daqueles dez traficantes estão presos.
CERCO FEZ BANDO SE RENDER
O sequestro no Intercontinental durou três horas. Sob pressão do aparato policial que cercava o hotel, o bando acabou se rendendo. Naquele mesmo dia, numa delegacia, seria feita uma foto histórica: dez soldados do tráfico atrás de uma mesa, na qual estava o arsenal apreendido.
Rogério 157, o mais alto da quadrilha, é visto no centro da imagem. À direita dele, de camisa cinza, estava Josué Neves Alves, o Da Nike, hoje com 24 anos. Na época, ele era menor de idade e passou 466 dias num centro de internação para jovens infratores. Presos em flagrante, os outros nove foram denunciados por cárcere privado, sequestro, associação para o tráfico, porte de arma e resistência à prisão. Dois dias depois, foram para o presídio federal de Porto Velho, em Rondônia.
A invasão ao Intercontinental foi determinante para que, pouco mais de um ano depois, em 13 de novembro de 2011, a Rocinha e o Vidigal (sob domínio do mesmo bando) fossem ocupados pelas Forças Armadas e pelas polícias do estado. As comunidades ganharam UPPs. Durante o cerco às favelas, Nem foi encontrado no porta-malas de um Toyota Corolla, na Lagoa, tentando fugir.
Apenas três meses depois da prisão de Nem, o tráfico da Rocinha comemorou uma vitória: uma liminar, concedida pelos três desembargadores da 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio, libertou os invasores do hotel por estouro de prazo para a conclusão da instrução criminal do processo. Eles até foram condenados a penas de 14 a 18 anos de prisão, mas um segundo habeas garantiu ao grupo o direito de recorrer em liberdade. Os mesmos homens respondem, agora, por outros crimes.
Além dos três que estão presos, quatro deles, incluindo Rogério 157, são considerados foragidos. Um foi morto e dois aguardam julgamentos em liberdade.
Os anos se passaram, e Nem ganhou até uma biografia. Preso em Porto Velho, ele tenta, segundo investigadores, retomar o poder na Rocinha, numa disputa que persiste. No último dia 17, a favela foi invadida por um grupo que, segundo investigações, segue ordens de Nem.
Já Rogério 157, que o sucedeu, hoje é chamado de “pai” por boa parte dos bandidos. Moradores o consideram um homem violento. Caçado pela polícia, ele foi acusado da morte de quatro pessoas, inclusive o sargento Hudson Silva Araújo, policial da UPP da Rocinha assassinado em julho no Vidigal.
A guerra entre Nem e Rogério 157 foi declarada após o assassinato de um outro bandido que invadiu o hotel, Ítalo de Jesus Campos, o Perninha, gerente da boca de fumo da Rua Dois. Ele teria recebido uma ordem de Nem para assumir o lugar de Rogério 157. De acordo com a polícia, Rogério 157 o executou, e deixou o corpo no porta-malas de um carro na Estrada da Gávea, para não deixar dúvida sobre quem manda na favela. Isso teria sido o estopim para a invasão da Rocinha por traficantes dos morros de São Carlos e da Pedreira, aliados de Nem.
Os outros dois invasores do hotel que têm papéis de destaque na guerra, segundo investigadores, são Da Nike, que se tornou exímio atirador e braço direito de Rogério 157, e Washington de Jesus Andrade Paz, o W, de 25 anos, que continua fiel a Nem, tomando conta do tráfico na parte baixa da Rocinha.
A polícia diz que, com outros seis traficantes, W sequestrou e torturou dois adolescentes no último dia 27. O motivo da violência: uma das vítimas usava um boné com a frase “Jesus é o dono do lugar”, que está escrita em um cordão permanentemente usado por Rogério 157.

